os dedos se seguraram entre as páginas do livro e veio um pouco de sono. Não demora nada e eu começo a sonhar com alguma coisa: de tão interessante, genial até, algo consciente quer se manifestar, comentar, guardar. É quando acordo e percebo que me esqueci de tudo desse pequeno sonho. Só lembro que conversava animadamente sobre Barthes, uns sorrisos, talvez alguns personagens – não sei se vontade minha de que eles estivessem ali, coisa de sonho que poderia ser verdade.
Categoria: corpo
HAVERIA UMA RELAÇÃO
entre o início de uma estação do ano e a mudança de fases da lua? Deve haver, já que são fenômenos dos astros, de todo um jogo de variações e recorrências, aos quais damos algum significado.
Conversando com uma amiga, ela me deu uma explicação simples: não há relação, visto que as fases da lua mudam no calendário, e que o começo de uma estação acontece numa data mais ou menos fixa.
Mesmo com a explicação simples, que eu precisava ouvir, ainda quero encontrar uma resposta para minha curiosidade. Mas, em vez de procurar a informação, vou deixar o tempo passar – e ver se essa resposta aparece algum dia, ao observar que mudanças vêm junto com as próximas estações.
– O QUE VOCÊ ACHA?
foi o que eu perguntei. Ao que recebi uma resposta em forma de pergunta:
– Por que não?
Pergunta menos incômoda do que intrigante. Não tenho nada de novo a dizer (até essa conversa já aconteceu e se repete agora dentro de mim), mas mesmo assim digo. Como se fosse um hábito.
NÃO VAI DAR TEMPO
muitas vezes é o que parece – então preciso partir logo. Depois penso, um pouco triste: melhor do que correr agora é saber esperar. Que o tempo que parece tão pouco agora é o mesmo tempo que ainda pode demorar (um tanto, vai saber quanto) para chegar.
EU QUERIA MAS
(até para conseguir o que quero) tenho que aceitar: – que algum termo no dicionário explica o que parece não encontrar palavra; – que não sou eu quem conta minha história; – que eu sou na verdade personagem, personagem ou aparição de sonho que quer contar uma história dentro de outras, mas que vive uma outra história que outra pessoa me conta.
DO QUE APRENDI COM AS MALAS
de viagem: para me acompanharem nos transportes públicos, a caminho de rodoviária, aeroporto, estação de trem, embarcação, carro, o que for, primeiro: não podem ter aquelas várias rodinhas que dão o giro de 360 graus. Não. Bastam duas rodas, não ‘rodinhas’, mas rodas grandinhas, robustas, para aguentarem os terrenos incertos por onde vou passar, por onde sempre passo. Bolsas de viagem, mais aconchegadas ao corpo do viajante, não suportam durante muito tempo o peso de livros que vão e vem comigo. Elas, malas ou sacolas, como também as bolsas, normalmente são de alguma cor, tem algo que é só delas e de mais nada: para serem reconhecidas de longe, como os amigos que aguardam minha chegada.
EU QUERIA ESCREVER
achei que a hora tinha chegado; aí peguei umas fichas do meu pai, uma caneta esferográfica azul numa gaveta da cozinha. E comecei. Fui desenhando as letras que eu via: a marca da televisão, os rótulos das latas, caixas e garrafas, um aviso na rua, os letreiros todos que eu conseguia ver, no ponto do ônibus na Cardeal Arcoverde com a Lacerda Franco. Ali em frente tinha uma gráfica. Dali para onde estávamos indo? Não sei mais.
Enchi umas duas fichas de letras, que estão guardadas até hoje. Escrevia? Talvez hoje eu diria que para mim escrever é escrever com os outros, para os outros, a pedido de alguém.
FUI CORTAR O CABELO
e toda vez que vou, por ir tão raramente, é um dia escolhido, depois de muita espera. Dessa vez, o cabeleireiro não lavou, nem borrifou; foi cortando a seco, muito mais Edward-mãos-de-tesoura do que já poderia ter sido. Deu medo a tesoura acertar minha cabeça, me cortar. O resultado nunca é plenamente satisfatório nos primeiros momentos. Na rua parece que todos estão olhando pra mim. Cheguei na livraria passando mal, quase desmaiando. Precisei sentar.
Lembrei de outra vez que cortei os cabelos a seco, de pé. Devia ter uns 10 anos, o salão envelhecido, amarelado, de uma senhora da Martim Francisco. Também quase desmaiei durante o corte, pressão baixa, as mãos formigando, e a cabeleireira nem percebeu, eu quietinha esperando terminar. Chegando em casa, daquela vez, uma mecha enorme. Voltei lá para ela acertar e não fomos mais cortar o cabelo ali, naquele salão que talvez nem exista mais.
DO QUE EU NÃO VEJO
há quem veja por mim, fora do meu alcance, sem que eu possa ter o mínimo controle, os fatos; alguém, que vê o que não estou vendo, olha pra mim com cuidado (ou mesmo sem) e me diz, certeiro: – Ana, não é assim.
Fico feliz por isso: pela amizade, por contar com o que me falam, palavras tão evidentes, verdades que não entendo, coisas que eu nunca veria sozinha.
ESCREVO UMA HISTÓRIA
em que ele é meu personagem; haverá diferenças, é claro, entre a pessoa e o que ele é em meus escritos. Não sei, no entanto, se ele lê o que eu escrevo. Na suspeita (ele é meu leitor?), escrevo para que ele se reconheça na leitura, que tenha, nas entrelinhas, alguma segurança em dizer – isso sou eu também! Como se fossem cartas para ele mesmo, noticiando coisas minhas mas também dando conta do que ele é para mim.

