TUDO É VERDADE

em “A mulher de 30 anos”, de Balzac. Peguei o livro como uma autopiada (e para entender o fato de Balzac ter se tornado padrinho das mulheres de 30) e saio com muito mais do que esperava. Nenhuma lição moral e ao mesmo tempo uma grande lição moral.

A verdade e a realidade sem nenhuma base sólida. Mesmo com as incoerências mais evidentes – um capítulo termina em 1823, o seguinte continua em 1821-, com erros de continuidade que Balzac não escondia do leitor, e justificava como podia: apelando justamente para a vontade do leitor. É o leitor que quer que as mulheres daquelas histórias sejam uma só. Como talvez ainda hoje vejamos sempre as mesmas personagens de uma história a outra: de Truffaut a Manoel Carlos…

Ou mesmo em “Almas à venda”, de Sophie Barthes, que coloca Paul Giamatti fazendo ele mesmo, já sem a surpresa que o recurso trouxe em outros filmes. De que maneira o filme explora a homonímia? Nos fazendo lembrar de que os atores, querendo ou não, vendem as suas almas?

Ideia maluca terminando o post: um biofilme sobre Balzac com Paul Giamatti – no papel de Balzac.

EM VEZ DE DIZER

outra coisa diz por nós.

Por falta do que dizer – por falta de conhecimento da própria situação? – a citação, a imagem de uma música, a referência a uma personagem.

O que Cecília Meireles disse também não é só dela era de outro lugar; ela deixou falar outras coisas?

Seriam das minhas coisas, afinal, de que ela fala?

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

PARECE QUE DO NADA

uma vontade vem: de sair da mesa, pegar um livro. Tinha uma desculpa para isso: estava com uma dor nas costas.
E o livro parece muito mais convidativo. Lê-lo na cama, sem interrupção, até o fim. Por mais que haja a obrigação, a prioridade, dá muito gosto o desvio. Ou melhor, a bifurcação mesmo. O fato de haver as duas possibilidades: o sim e o não.
As coisas todas na agenda esperam o seu tempo.

CHEGAR MAIS PERTO

indo longe.

É como eu estou tentando definir “Berkeley em Bellagio”, que li hoje. Pode ser por conta de tantas outras coisas acontecendo e que estou lendo, o livro me pegou. O resto do dia (comecei o livro umas 10h, no metrô Santana, peguei a linha verde e descobri a recém-terminada estação Sacomã, com plataforma protegida por portas de vidro, como a linha 14 em Paris; dei voltas na linha verde, desci na estação Brigadeiro, por lá terminei e voltei para casa com as primeiras gotas da chuva muito forte) fui andar ao redor de escritas que o Noll me trouxe.
A Vanessa, que estuda justamente ele (como foi mesmo que começamos a nos falar? será que eu mandei o cartão postal pra ela?…); o Barthes, pensei muito em Incidentes e Noites de Paris, que justamente terminei de ler hoje também; essa busca desesperada por afeto.

Mas também a outras: as fotos que precisavam ser melhor organizadas, essa coisa de estação do metrô abrindo e o preço do transporte subindo, as chuvas cada vez mais fortes, o terremoto do Haiti e Dany Laferrière está lá, escrever emails como se fossem cartas, os textos e as pessoas que estão nos meus textos.

E mesmo ao caderninho azul.

SEMPRE ME PARECEU

um dever, para mim, a leitura da produção literária brasileira contemporânea – um dever daqueles que eu não sigo como gostaria. Não somente para alimentar o repertório de assuntos em rodas de colegas em festas e jantares. Mas pelo fato de que são obras de pessoas que estão aí, andando pelas ruas, pessoas com as quais podemos encontrar e falar. Já fui apresentada ao Miltom Hatoum, por exemplo, e fiquei vexada de conhecer a obra dele de longe somente. De não ter lido nada, nem que fosse para falar mal. Até hoje ainda não peguei nada do Hatoum para ler… porque a prioridade foram as leituras obrigatórias do curso.

Enfim, mas encontrei no trabalho que fiz em dezembro para a rádio francesa (merci enorme para Daniela Prado) o escritor Bernardo Carvalho, e gostei muito da postura dele, da maneira como colocava suas opiniões. E é um cara respeitável e tudo. Sabia que o último livro tratava da imigração japonesa em São Paulo. Aí fiz o percurso básico até a livraria comprar O sol se põe em São Paulo, lançado em 2007.

E não somente: comecei a caçar na internet entrevistas e coisas do tipo. Enquanto lia ainda o livro, peguei esse texto da revista rascunho, no qual Bernardo levanta as questões que toda pessoa envolvida com literatura (seja escrevendo, seja lendo ou estudando) se faz: para que serve a literatura? serve para alguma coisa ou não tem que servir para nada mesmo?

De uma maneira ou de outra, Bernardo Carvalho leva à sério a reflexão, e a coloca de maneira central neste romance, resultado talvez de um impasse no qual ele se encontrava depois de dois livros bem-sucedidos. Ligado ao pensar-sobre-literatura, ele constrói ao mesmo tempo uma investigação, de retorno às origens, romance de viagem e de aprendizado, coisa do romance por excelência.
Por mais que em alguns momentos force a mão na linguagem, tentando ser muito explícito, ou muito explicativo, o que para mim cansa, aprecio o fato de um livro prender a leitura. E foi o que aconteceu comigo. Lia grudada ao livro.

E viagens distantes, pelo que me parece, estão sendo mais frequentes para Bernardo. Ele que foi ao Japão, para escrever o livro (poderia ter feito como Chico Buarque em Budapeste, escrever sobre um lugar sem ter ido?…) sem ajuda financeira, com poucos recursos próprios, ficou um mês em São Petersburgo por conta de um projeto bem ambicioso, Amores expressos: dezesseis escritores brasileiros em diversos lugares do mundo escrevem histórias de amor, mantêm um blog durante a viagem (o de Bernardo aqui), para que depois os livros sejam adaptados ao cinema. Interessante, não?

Voltando a O sol se põe em São Paulo, uma coisa ele vai deixar comigo: a idéia de que as histórias são essenciais para vida, e que devemos ouvi-las e contá-las, antes de morrermos.

SOU MAIS DA PROSA

que da poesia, e o que me atraiu ao livro de Nathalie Quintane, Começo (Début), publicado em 2004 pela 7letras e Cosac&Naify, foi o sub-título entre colchetes:
[autobiografia]

Je m’appelle encore Nathalie Quintane. Je n’ai pas changé de date de naissance. J’habite toujours au même endroit.
Je suis peu nombreuse mais je suis décidée.

Eu ainda me chamo Nathalie Quintane. Não mudei de data de nascimento. Ainda moro no mesmo lugar. Sou pouco numerosa mas sou decidida.

Assim ela se apresenta no site do seu editor, onde ela mantém uma produção considerável, regular e constante. Além das publicações, Nathalie faz leituras públicas e vídeos de seus poemas.

Autobiografias em poemas como Começo, que se assumem como tal, são menos comuns, mas existem. Nesse caso, Nathalie página a página, com poemas em prosa e com a dicção da prosa, recupera momentos e objetos da infância, adolescência, até um fecho pouco positivo, “a entrada no mercado de trabalho”.

Acho que se pode ver os poemas de Começo como um todo, ou pelas seções que dividem o livro e ficam cada vez menos marcantes, ou separadamente.
Prefiro considerá-los pelas seções, deixar algumas dessas seções de lado, e dizer que as que mais apreciei foram as iniciais. Talvez as menos autobiográficas, uma vez que elas discorrem sobre fatos corporais, as sensações destacadas da inércia rotineira. Me lembrou Amélie Nothomb e sua vida de bebê-cano, que ela narra em Metafísica dos tubos.
Um trecho:


Começo 4

Porque não nasci com uma colher na boca, é preciso a cada vez que ela chegue de fora.
(…)

Porque o meu nariz não cresceu para dentro, é o fora que eu respiro.
(…)

Porque os meus ossos estão ligados por nervos e por músculos, sou feita de uma só peça.
(…)

Só de botar o dedo na água, sente-se bem que não é assim tão natural que ele esteja normalmente no ar.

Desnecessário dizer o seu nome corretamente para saber que é este aí.

A constante descoberta do corpo como movimentos e possibilidades me pareceu um traço da poesia de Nathalie. Falo isso também por conta do vídeo a seguir:

O blog da revista Modo de usar fala melhor que eu sobre a autora e apresenta outro trabalho em áudio. Tudo devidamente traduzido para o português. Legal saber que eles são da livraria Beringela, um lugar muito bacana que visitei lá no Rio.