SÍNDROME DE MIGUELITO?

era o título de um post que publiquei em 5 de novembro de 2003, no colher. Cheio de pontos de interrogação, me questiono sobre o tempo e uma provável preguiça. O interessante é que, relendo hoje, não me parece preguiça o que eu sentia. Quem sabe fosse tédio.

Lembro bem que eu me recusava a sentir tédio. Tanta gente ao meu redor falava dele, mas eu achava que aquilo não me atingia. Eu tinha muito o que fazer, sempre uma atividade, um compromisso, uma tarefa. Sentia-me feliz ocupada e distraída.

Repensando agora, evitar o tédio era também evitar pensar sobre coisas importantes na vida. Sempre em movimento, não me permitia enfrentar as dúvidas que nos perseguem.

Durante muito tempo quis ser uma menina exemplar: boas notas na escola, simpatia. Era uma tentativa de agradar, satisfazer alguma possível expectativa dos outros. Essa menina que quis ser exemplar tornou-se mãe e se confronta com a mesma questão. Só que se deu conta de que não é necessário agradar a ninguém mais que eu mesma. Se estou feliz e segura das minhas escolhas, então o mundo estará feliz.

De uma forma ou de outra nós enfrentamos o tédio, o Francisco e eu, em dias chuvosos, em que o melhor é ficar dentro de casa. Aí me defronto com minhas escolhas: suas vantagens e seus pontos fracos. Como tanta coisa na vida, nada é perfeito, tudo tem seu defeito. Luz e sombra existem uma pela outra.

Algo estava acontecendo lá em novembro de 2003. Eu não sabia explicar o quê. Fazia muitas alusões a mudanças, transformações, dar espaço a coisas novas, futuro.

Como faço agora, exponho pela escrita minhas incertezas, lanço-as ao futuro, para que eu mesma possa ler anos e anos depois.

 

pregui_a

 

Talvez sim. Está difícil de explicar, de tentar esclarecer. De saber qual seria a razão. Não que haja só uma razão. Como também não dá pra se dizer que nada está acontecendo. O tempo está passando – como sempre. Tenho coisas pra fazer – tem sido assim desde há muito. E o que há de diferente então nesse exato momento? Cansaço? Ansiedade? Angústia? Incerteza? Alegria com pequenas coisas que a gente tenta prolongar? Fins-de-semana que passam rápido como um piscar de olhos? Desilusão? Isolamento? Vontade de desistir com uma coisa pra dar espaço pra outra? Tentar passar a limpo um monte de coisas pra uma folha nova, pra que tudo fique claro? Querer continuar a fazer o que se gosta? Iniciativa de tomar novas atitudes, ao mesmo tempo descontroladas e sensatas? Necessidade de férias que não virão? Dependência de outras coisas pra que hajam mudanças? Não conseguir saber como serão as coisas mesmo a curto prazo? Tudo isso junto. E nem tudo isso também.

Como anda tão difícil pra mim mesma tentar definir, parece que todo mundo consegue entender. E uma das maneiras de chegar mais perto disso está sendo a de demonstrar em maior ou menor ângulo justamente o que eu não sei o que é.

AS FRALDAS DE PANO, UM ANO E MEIO DEPOIS

continuam sendo utilizadas na grande maioria das vezes. Excepcionalmente, o Francisco usa fralda descartável — em dias que ficamos muito tempo longe de casa, dentro do carro, por exemplo. Era algo que a gente não fazia no começo, mas que fomos pouco a pouco cedendo: sim, as fraldas descartáveis são bem mais práticas e não exigem uma troca tão frequente. De toda forma, preferimos ainda as de pano.

Alguns pontos devo assinalar: as fraldas de pano têm uma durabilidade menor do que esperávamos. Por volta do primeiro aniversário do Francisco, sentimos a necessidade de renovar um pouco nosso kit de fraldas e capas de pano. Percebemos que elas já estavam gastas. Afinal, todo dia eu devia lavar uma máquina com fraldas e roupinhas. É natural que elas já estivessem velhinhas. Da quantidade de fraldas que compramos no início (post aqui), a metade foi renovada. As fraldas noturnas, sobretudo, tem uma vida útil mais curta do que as outras, provavelmente porque recebem uma quantidade maior de xixi…

Arquivo Escaneado 33

 

Um ano atrás praticamente, no primeiro post sobre o assunto, eu já me perguntava como seria lavar a fralda suja de cocô, depois da introdução alimentar. Isso porque cocô de bebê que mama exclusivamente leite materno é uma coisa simples, quase sem cheiro, bem líquida. Aos poucos, as fezes vão mudando e adquirindo consistência. Na maior parte das vezes, a limpeza é simples: o cocô se descola sozinho do tecido, jogo-o direto no vaso sanitário — o Francisco dá tchauzinho pro cocô e dá a descarga (eu o subo na tampa do vaso). Mas não é sempre uma maravilha. Há contato direto com as fezes e isso necessita uma boa limpeza posterior.

Eu também mencionava o desfralde. Com um ano e meio, por enquanto, o Francisco sinaliza, vez ou outra, que faz xixi ou cocô. Estamos bem no comecinho do processo. Quando temos oportunidade, deixo-o sem fralda, brincando pela casa. Também observa a mim e ao Marco indo ao banheiro, usando o vaso, dando descarga. Assim aos poucos ele vai percebendo como funciona. Mais importante de tudo é dar tempo ao tempo, passo a passo, aprender dia a dia. Possivelmente daqui um ano volto ao mesmo tema — ou até antes, vai saber!

FAZER UM BALANÇO DE 2014

me pareceu uma boa ideia. Muita coisa aconteceu e é interessante organizar os fatos, para então traçar planos para o ano que está chegando.

De uma certa forma, esse balanço já começou no post anterior. No final de 2013 eu coloquei como meta procurar algum tratamento alternativo — para cuidar tanto do corpo como da mente. Como presentes de natal, comprei para mim “Comunicação não-violenta” (de Marshal Rosenberg), “Você é minha mãe?” (quadrinho da Alison Bechdel) e “Mulheres visíveis, mães invisíveis” (da Laura Gutman). Essas três leituras se relacionam entre si, não por acaso, com o momento que estava passando. Vale posts para cada um deles, brevemente.

Em fevereiro, Francisco completou seis meses e começou a comer, por blw, provando as primeiras frutas e legumes. Em paralelo, tirei da minha alimentação açúcar refinado, glúten e quase todos os laticínios. Acredito que, como consequência do tratamento, me dei conta de que estava bebendo água de maneira compulsiva. Só agora no final do ano relaciono a sede excessiva ao consumo do glúten. Os produtos com farinha me pesam no estômago e são difíceis de digerir — o que me dá dor de cabeça e sensação de boca seca. Essa é como meu corpo reage; cada pessoa assimila os alimentos à sua maneira.

O ano passou testando, pesquisando e provando alimentos novos, predominantemente de origem vegetal — mas sem aderir ao veganismo estrito. Na cozinha, preparei coisas que não deram tão certo, mas também delícias como um purê de inhame, temperado com shoyu e cebolinha (inspirei-me aqui).

image

Crochê e tricô ficaram meio de lado. O tempo ficou mais curto.

Francisco mal engatinhava no começo do ano; viajou pela primeira vez com 11 meses; deu os primeiros passos sozinho aos 13 meses e agora aos 16 já fala suas primeiras palavrinhas: água, flor, túnel, mamãe, papai, nonna, vovó, cocô, inhame, não, tá bom, tó…

Tem umas semanas que passeamos com um triciclo. Até então, era somente sling ou colo. Ele está maior, mais pesado — mas, principalmente, quer novidade. E se diverte à beça com o triciclo. Quando cansa, vem pro sling.

Tudo flui, está em movimento — de janeiro pra cá, foram tantas pequenas mudanças e descobertas que não caberiam aqui. Termino este ano muito feliz, aceitando a vida com suas passagens, perdas e aprendizados.

UM ANO ATRÁS, EM DEZEMBRO

estava rascunhando o relato de parto; o texto ia crescendo e ficou tão longo que o dividi em partes; elaborei uma série de posts; escolhi dia 21 de dezembro para começar a publicá-los no blog; reiniciaria, assim, a escrever nele, depois de um bom tempo parado.

O Francisco estava começando a se virar deitado; fazia uns sons gostosos, risadas e gritinho agudos; salivava muito; levava os dedos à boca, tanto os dele como os nossos; estranhava as pessoas; teve seu primeiro resfriadinho, que sarou com difusor de óleo essencial de eucalipto, peito, carinho e mais nada; dormia no meu colo enquanto eu fazia uma colcha de crochê ou lia algum livro; as cólicas dos três meses já tinham cessado; passamos pela consulta dos quatro meses, a partir da qual decidimos mudar de pediatra; pequeno, eu passeava com ele amarradinho no sling wrap, sentindo o corpo dele junto ao meu.

image

Lá pelos dias de natal e ano novo, disse ao Marco: – preciso de ajuda; uma terapia, tratamento, alguma coisa. 2014 começou meio duro. Era como se eu tivesse perdido as chaves mas estava procurando no lugar errado; o mundo me parecia áspero demais… Meus pés doíam e a cabeça pesava. Precisava de alguma mudança.

Fui atrás. Encontrei livros e pessoas. Essas pessoas e livros me levaram a encontrar outras pessoas e outros livros. Sem elas, não sei o que teria sido deste ano. Sou muito grata pelos encontros e trocas, dentre as quais conto com a atividade do blog. Definitivamente, faz parte da minha terapia — um “cuidar de mim”, um meio de pensar o que vivo, de transmitir e receber coisas boas. Que bom.

AS CÓLICAS DE BEBÊ

surgem nos primeiros dias de vida e vão até aproximadamente três meses. Não são uma regra: há bebês sem esse tipo de problema.

A cólica não tem uma explicação aparente, precisa ou “científica” — ao que tudo indica, acontece somente em nossa cultura ocidental. Há quem compare à dor de parto — o que dá um aspecto interessante, ao meu ver. A criança, em sua transição para o nosso mundo, precisa aprender a digerir as impressões que recebe. E esse processo pode causar dor, incômodo e desconforto.

Muitas vezes essa cólica é percebida como um choro inconsolável, que acontece nos fins de tarde. Passado quase todo o dia, o bebê chega a um ponto de estresse difícil de acalmar.

Não era esse o caso do Francisco. Tivemos um outro quadro aqui em casa: pela manhã, lá pelas 7 horas, quando o Marco saía para trabalhar, o Francisco começava se contorcer e gemer. Eram chorinhos curtos, seguidos de um tempinho de calma. Depois de uma pausa, a cólica voltava. Isso continuava até que ele conseguisse fazer cocô.

fonte: http://pt.wikihow.com/Segurar-um-Bebê

De que maneira lidamos com essa cólica? Primeiro, decidimos colocá-lo ao nosso lado na cama. Ao manifestar desconforto, oferecia o peito. Sugando, muitos bebês se acalmam. Caso ele já estivesse satisfeito e não mamasse, colocava uma bolsinha de sementes quente. Sempre a deixava pronta toda manhã cedinho. Quando o Marco estava em casa, ele o pegava no colo, deitado com a barriguinha apoiada no antebraço. Aliás, essa era uma posição muito gostosa para carregar o Francisco nos primeiros meses, independente da cólica.

Também fazia shantala, caprichando nas perninhas. Eu as movimentava como se ele estivesse pedalando uma bicicleta. Controlei minha alimentação, evitando alimentos pesados. Tomava chá de erva-doce e camomila (não é aconselhável dar esses chás diretamente aos bebês, pois podem complicar ainda mais a digestão deles).

Por volta dos três meses, a cólica foi rareando, até desaparecer por completo. Nenhum remédio (por mais que palpitassem ao nosso redor), muito carinho, proximidade corporal, colo, peito e paciência — assim enfrentamos essa primeira etapa da assimilação e digestão da nova vida que estava começando.

COLO E CAMA COMPARTILHADA

eram os assuntos de uma mensagem que recebi; a pessoa me perguntava alguns detalhes sobre o que havia escrito em alguns posts anteriores: quando exatamente o Francisco começou a dormir junto conosco e como protegemos a cama. Depois o papo enveredou para a questão do colo — porque muitos palpites circulam em torno disso. O senso comum defende que colo é desnecessário, ou que até mesmo deixa a criança mal-acostumada. Como lidar e enfrentar esse tipo de comentário?

Foi uma outra troca de mensagens enriquecedora. Por isso até vale publicar aqui, como já fiz outras vezes.

Olá!
Já na casa de parto, nas primeiras noites, o Francisco dormiu na nossa cama. Lá elas tinham organizado umas almofadinhas que o protegiam; achamos melhor ele dormir conosco do que no berço, que era distante.
Em nossa casa, o berço era colado com a cama, mas já com três semanas de vida ele dormiu definitivamente conosco. Ao mesmo tempo eu comecei a amamentar deitada. Antes eu tinha receio de machucá-lo… até que ouvi de uma consultora que as mães tem o instinto de não se moverem tanto quando dormem ao lado do bebê. E não é verdade? Nunca aconteceu conosco de encostar ou me virar sobre o Francisco.
É necessário proteger os lados da cama. A nossa já era encostada numa parede. Do outro lado o berço protegia. A cabeceira encostamos numa estante. Hoje em dia ainda continuamos a cobrir três dos lados da cama — ela está num dos cantos do quarto, isto é, dois lados estão na parede, e do outro lado encostamos uma cômoda. Assim, só a parte dos pés é livre. Aos dez meses o Francisco aprendeu como descer da cama, de costas, sem se machucar. Aconteceu só duas vezes de ele cair… ele estava dormindo e eu não estava por perto. Mesmo assim não foi nada grave. Há outros bebês que caem de camas e sofás mesmo sem dormir lá; e bebês que pulam inclusive do berço!

Aquelas almofadas de gestação, em forma de U, são muito boas; há modelos menores para bebês. Usávamos muito, quando o Francisco era bem pequeno, para apoiá-lo ao dormir de lado. Assim também havia uma barreira entre ele e nós.
No fim das contas teu filho perceberá a tua presença na cama e pode ser que ele vá querendo se mover na direção do teu peito, ehehe, isso aconteceu com a gente nos primeiros meses! Espero ter respondido tua pergunta, qualquer coisa escreva.

image

trecho de “A doença como linguagem da alma na criança”, de Rüdiger Dalhke e Vera Kaeseman, que encontrei dias depois de ter escrito essas mensagens

[mensagem seguinte, sobre o colo]

Imagina como o teu filho estava dentro da barriga: 9 meses de aconchego total. Todo bebê precisa de uma transição que não seja abrupta. As pessoas vão falar de tudo: fazer o quê? É o preço das nossas escolhas… O Marco e eu vemos o resultado de tanta proximidade corporal: Francisco nunca esteve doente, exceto resfriadinhos, quase sempre alegre e muito sociável. Como você mesma me conta, eu também não tinha tempo nem pra ir ao banheiro. É assim, uma dedicação intensa nesses primeiros meses. Posso dizer que vale a pena! Esse tempo passa e não volta mais…

Você o coloca no sling? Ajuda muito, tanto fora como dentro de casa. Teu filho fica gostoso e pertinho do teu corpo e você pode passear, cozinhar, ler…

Algumas pessoas exageram em seus comentários sobre colo. Não é que ele estará o tempo todo grudado em você, mas ele é tão pequeno ainda! Além disso, bebês passam por fases em que precisam de mais peito e colo — e outras em que ele dormirá e brincará sozinho numa boa. O bom é dosar, equilibrar: escutar o coração sem ligar para o que os outros acham.

Ou seja: independente de qualquer conselho que eu mesma e outras pessoas possam te dar, o importante é vocês dois, teu marido e você, escutarem a si mesmos. Pode até ser difícil, mas vale pelo esforço em se autodescobrir: que mãe e pai somos nós? Que mãe e pai queremos ser?

MIX DE FRUTAS

no liquidificador: fazemos todo dia em casa. Para mim, é um dos principais substitutos ao pão do café da manhã ou as bolachas do lanche da tarde. Como um mix tem muitos ingredientes diferentes, não dei logo de cara pro Francisco. Depois de alguns meses, aos poucos, comecei a oferecer pra ele.

Muita gente opta por suco de fruta. Nós aqui fazíamos muito suco de laranja, mexerica. É muito gostoso, mas tem o inconveniente de ter muito açúcar e pouca fibra. Ou seja, suco coado não é uma coisa para se tomar sempre, todo dia, nem para bebês nem para adultos.

Meio como cremes ou smoothies, mix são parecidos com papinhas. Também preparo algumas; amasso abacate e misturo com banana, pêra e leite de arroz no garfo, vai virando meio líquido. Já preparei inclusive papas quentes, tipo mingau — como essa receita aqui. Mas não gostamos tanto… ainda preferimos os mix.

Tem uma infinidade de combinações possíveis. Um que faço bastante leva banana congelada, leite de coco, pedaços de manga. Outro exemplo: ameixa seca de molho num copo de água durante a noite com semente de girassol e coco ralado. O importante é que tenha alguma fibra junto com o açúcar das frutas.

image

Por aí afora, há mil e uma receitas de creminhos-smoothies-mix — além de sucos verdes, coisa que eu preciso pegar o jeito de fazer. Logo, sei que não estou inventando a roda com as minhas misturas. De toda forma, acho legal compartilhar, neste post, os ingredientes que já bati no liquidificador.

Frutas frescas — muitas delas podem ser congeladas, o que ajuda a dar a consistência cremosa: banana, manga, mamão, abacaxi, abacate, morango, framboesa, mirtilo são ótimas.

Frutas secas — o interessante é deixá-las de molho num copo de água durante a noite; aí elas ficarão molinhas e hidratadas. De manhã, colocar no liquidificador as frutas junto com a água. Ameixa seca é uma ótima fruta para soltar o intestino. Usei muito durante umas semanas em que o Francisco ficou com dificuldade de fazer cocô — o que é comum na introdução alimentar. Além da ameixa seca, uso muito tâmaras, mas também manga seca.

Nozes, castanhas, avelãs — elas também precisam ficar de molho para hidratar. Aliás, é mais ou menos assim que se faz leite vegetal (aqui e aqui algumas possibilidades).

Água, leite de coco — ou um leite vegetal.

Linhaça — o segredo da linhaça é que ela ajuda na consistência gelatinosa. Basta deixar a linhaça num potinho com água dentro da geladeira. Por sinal, é um bom substituto para ovo em receitas. Isso sem falar nos benefícios nutricionais.

Diversos — qualquer coisa que combine com as outras coisinhas acima: gergelim, amaranto em flocos, coco ralado, cardamomo (combina com manga e banana, como no lassi indiano), canela, noz moscada. Depois de batido, tem vezes que misturo com esse creme de arroz molhado; fica ótimo.

Um bom liquidificador, potente e se possível com copo de vidro e modos para picar gelo e fazer smoothies.

Potinhos, colheres a postos e bom apetite!

“MINHA FILHA NÃO COME!”

— foi mais ou menos assim que me escreveram. Ela, mãe de uma menina de seis meses, me dizia que a pequena não aceitava as comidinhas oferecidas por meio do blw. Desolada, a mãe chorava frente a recusa da filha.

Conversamos alguns dias, por messenger. Gosto muito dessas oportunidades de troca de experiência — tanto ela como eu pudemos refletir sobre a introdução de alimentos e suas dificuldades iniciais.

Pensando em contribuir e inspirar outras mães que se encontram também nesse momento, reproduzo logo abaixo as mensagens que escrevi a ela.

Olá! você acha que ela rejeita a comida por ser em pedaços, pelo blw? e se fosse papinha, será que não aconteceria algum tipo de rejeição? O ponto do blw é q a criança guia e controla o que come — rejeitar, então, faz parte. É preciso entender o que ela quer sinalizar com a recusa: falta interesse? há ansiedade no ar? como se desenrolam as refeições?

O Francisco comia pouco no começo; muitas vezes ele vomitava tudo e eu ficava super triste. Aí tentei trabalhar essa minha frustração; rever teus pensamentos a respeito da comida. Eu vivo cercada das lembranças minhas de infância; fui uma criança que rejeitava quase tudo o que cozinhavam

Passado tanto tempo, estou do outro lado da história. Sou eu quem prepara e oferece os alimentos. E percebo que dá um super trabalho cozinhar, limpar, escolher etc… mas é tão gostoso nutrir assim! Tenho aprendido um montão com essa nova fase da vida de mãe e até hoje tento consertar minha relação com os alimentos.

Outro probleminha que enfrentamos: o Francisco come super rápido. A gente se perguntou: — por quê? Nos demos conta que nós dois, Marco e eu, também fazemos o mesmo… Agora estamos tentando comer com mais lentidão.

A respeito da tua tristeza: chore o que for necessário chorar, mas deixe-a ter contato com a comida, mesmo que pra brincar e sujar a casa. Limpar também é um exercício e uma meditação, digo isso por experiência própria. Eu limpo a sujeira de comida mentalizando que essa é uma etapa de descoberta para o Francisco e que vai lhe dar uma relação saudável com a alimentação.

Vai buscando a razão do teu choro, que não é a recusa dela em comer. É algo dentro de você: medo de falhar, medo da experiência nova, coisa do tipo. Até mais!

image

(um dia depois…)

Retomando o que estávamos conversando ontem: não me preocupa o fato de a tua filha rejeitar a comida. Os seis meses são um marco aproximado para a introdução de alimentos — pode começar um pouco antes, 5 meses e meio, pode acontecer depois. Já ouvi vários casos de bebês que só comeram a partir de 9, 10 meses. Isso tanto faz se por blw ou com papinhas, salgados ou doces. Tua filha precisa se sentir pronta para esse novo passo na sua vida — alimentar-se sem que seja por meio do peito e do leite. É um salto enorme, junto com o atos de se sentar, engatinhar e a chegada dos dentes. Aliás, ela pode estar recusando por conta dos dentes despontando, um resfriadinho, qualquer coisa desse tipo.

Dito isso, o que deve ser analisado é seu choro e a ansiedade no ar de que você fala — ou seja, investigar dentro de você quais são os sentimentos, anseios e medos que esse choro quer dar vazão. Só você pode saber. Às vezes demanda tempo e muita reflexão para se chegar a algo.

De toda forma, tua filha é uma pessoa e tem o direito em recusar a comida, ter seus gostos. Mas cabe a vocês despertar o interesse e cultivar bons hábitos. Normalmente, o medo que se esconde na criança que recusa a comida é que ela talvez esteja recusando alguma outra coisa — que o que vocês oferecem a ela não agrada, que ela quer ou espera alguma outra coisa, um outro tipo de atitude frente a vida, quem sabe. O que você acha?

Você conversa com ela a respeito? É muito importante falar, seja das coisas boas que vocês vivem, seja dos receios, dos pontos negativos; ajuda muito.

Como se desenrolam as refeições, como você prepara a comida? vocês comem sozinhas ou tem a companhia do pai? de outras pessoas? ela está sempre à mesa na hora das refeições? o que faz? olha com interesse para as comidas e bebidas? tenta pegar?

Sobre seu desenvolvimento: ela já senta sozinha? já pega objetos? leva-os à boca? já chegaram dentes?

Eu sempre leio muito, pesquiso blogs: me ajuda ler a experiência de outras pessoas. Participo também de grupos no facebook; eles valem a pena para ver o que outras mães fazem, trocar ideias e dividir medos.

Não sei o quanto você conhece da Laura Gutman ou do Carlos González; eles tem textos muito bons sobre a alimentação como esse e esse. Uma das principais orientações que eles dão é: confiar em nossxs bebês. Por um acaso enquanto escrevo me deparei com esse trecho aqui:

image

Aqui o Francisco começou aos seis meses a comer, mas era tudo bem pouquinho. E eu fui bem desencanada: se não comia, ok. Tanto que depois que ele completou um ano eu percebi que deveria acelerar, dar mais comida, organizar horários para o lanche da tarde, etc. Também a partir de um ano liberei ocasionalmente pão — coisa que eu não tinha previsto antes, hehe, queria deixá-lo livre de gluten. Agora estoue posicionando de maneira mais ponderada.

Porque a grande questão é: se eu quero dar uma boa alimentação a ele, também devo ter segurança das minhas escolhas. Em uma festa, vai rolar de ele se interessar pelo bolo ou outro doce (ainda não aconteceu). Tudo bem. Durante toda a semana, a gente come coisas boas em casa. Não devo encarar o doce como uma ameaça à sua saúde.

Aproveite esse momento então pra encarar de frente a insegurança — e mandá-la embora ;) o bom das crianças é que elas nos dão essa oportunidade. A gente precisa de coragem, para depois transmiti-la às crias!

Espero que te ajude o que escrevi.

Trocadas essas mensagens, passaram-se alguns dias até que a situação mudasse e a filha despertasse a curiosidade em levar frutas à boca. Em paralelo, a mãe entrou num grupo de blw no facebook e participou de um workshop sobre introdução alimentar. Os espíritos se renovaram e a partir daí as refeições se desenrolaram mais tranquilamente, sem recusas ou choros. E com ela eu descobri esse ótimo blog sobre blw. Que gostoso!

O PARTO É MEU

— foi mais ou menos com essa ideia em mente que fui me preparando durante a gravidez. O nascimento dx bebê seria uma experiência única. Mesmo mães que passam por várias gestações dizem que cada um desses momentos são diferentes um do outro. Sentimentos, dor, medo: são todas coisas muito pessoais.

Por isso quase sempre sinto dificuldade em ajudar mulheres que me escrevem perguntando sobre gravidez e parto. Uma das coisas mais importantes é informar-se, na minha opinião. Mas cada pessoa tem seus pontos de vista. Há gente que prefere não ler ou pesquisar. Há quem dê mais confiança a um/a profissional do ramo.

Arquivo Escaneado 2

 

Uma coisa me parece certa: a mulher pode se cercar dos profissionais mais qualificados — o parto acontece entre as suas orelhas, na sua cabeça. Cabe a ela, e a mais ninguém, dar conta das contrações e abrir caminho à dilatação. Por isso penso que chamar a responsabilidade para si é o caminho mais interessante. A gestante que toma consciência de seu papel estaria mais preparada para enfrentar a montanha russa e as ondas que a esperam no parto — inclusive os imprevistos, tudo aquilo que foge ao esperado. E pode encarar com mais coragem todos os desafios que virão pela frente. Digo isso pensando na minha vivência pessoal; cada mulher saberá o que é melhor para si.

Nessa minha relação entre o que escrevo e as pessoas que me lêem, eu preciso sempre estar atenta às fronteiras entre a minha experiência particular e a vida das outras pessoas. Se eu tive um parto natural, sem intervenções, rápido, foi porque aquilo era o que eu tinha para viver. Me dói o coração quando fico sabendo de algum caso de violência obstétrica, como foi a cesárea forçada de Adelir. Porém, não devo de modo algum impor o que para mim me faz feliz aos outros. Posso aconselhar, relatar, exprimir meus sentimentos. E sobretudo desejar o melhor para cada mãe e bebê. Mas é necessário, contudo, que eu tolere e não julgue — nem lamente — as diversas experiências da maternidade. Afinal, muita coisa nessa vida não acontece por acaso

“VOCÊ DEVERIA SER MAIS FEMININA!”

ou algo do tipo; não lembro direito como a frase foi formulada. Eu escutei isso de uma conhecida, uns cinco anos atrás. Fiquei muito surpresa com o comentário. Como assim, ser mais feminina?

Ela queria dizer feminina talvez no sentido mais recorrente do termo: usar maquiagem diariamente, tratar do cabelo, vestir roupas da moda, perfume importado. Para ela, eu deveria valorizar meus atributos físicos. Ser atraente, chique. Era, coincidentemente, a sua maneira de ser feminina. Feminina como a maioria das capas de revista, as atrizes famosas, as modelos — como nos dizem que deve ser.

Fiquei meio desconcertada com essa conversa. Não dei muita trela, pouco disse a respeito. Agora pensando, já tanto tempo depois, poderia ter respondido que há muitas maneiras de ser feminina — tantas como são diferentes cada mulher deste mundo.

20140828_230522-1

Absolutamente nada contra a pessoa que se sinta bem de salto alto, escova feita e maquiagem retocada — mesmo. Só quero ter a possibilidade de encontrar minha própria maneira de ser feminina. E não precisar me sentir menos mulher que qualquer outra.

Dias atrás, comentava com uma amiga que eu gostaria de deixar meus cabelos grisalhos, ou seja, não usar tintura para retocar os fios brancos. Ao que ela diz: “claro, desde que você não fique com cara de velha”. Mas qual é o problema em parecer velha? Que mundo é esse que desvaloriza a velhice de uma mulher?

Talvez na mesma semana, ouvi outra que vale relatar: “seu filho já tem um ano de idade e você ainda não conseguiu perder essa barriga”. Essa foi f*da. Quer dizer que eu preciso ter uma barriga chapada? Pra essa, fiz cara de alface. Também fiquei me perguntando que liberdade dou axs outrxs para que me digam coisas desse tipo.

Ao nosso redor veiculam regras, muitas vezes sutis e tácitas, para definir quem somos. Desde a infância… as meninas: delicadas princesas, belas, de cabelos longos e lisos; os meninos, corajosos cavaleiros, lutadores — aquela tal polarização entre o rosa e o azul.

E bem sabemos como é duro encaixar-se no que esperam de nós. Podemos passar anos e anos da vida buscando ter o corpo que não temos. Dando pouco valor a quem somos, à nossa beleza particular, aos nossos pontos fracos e defeitos irrepetíveis.

Pode ser que eu mesma, ali cinco anos atrás, não sentisse em que dimensão construo minha feminilidade; que me sentisse um pouco à parte das mulheres que se assemelham àquele modelo que nos oferecem desde cedo, quando começamos a ouvir “você está ficando mocinha…” O tempo e a experiência da maternidade estão me ajudando nesse sentido. De toda forma, a estrada é longa e o assunto não cabe somente neste post.