GRANDES ESPAÇOS

são constantes nos meus sonhos. Grandes e lindos, eles muitas vezes se movem.

Foi o caso de um sonho muito bonito, semana passada. Estava no apê do Cícero. Era e não era onde ele mora. A questão é que da janela víamos prédios se moverem, como se estivéssemos num trem. Ficamos com vontade de passear e conhecer um desses prédios raros e belos.

Era um mosteiro, algo assim. Estava correndo o risco de ser demolido, mas felizmente conseguiram recuperar a construção. Transformaram num spa, num hotel. Há duas alas, com rampas – algo semelhante pode ser visto em Higienópolis, bem menorzinho do que no sonho.

Uma ala para homens, outra para mulheres. Entramos na ala dos homens, eu invadindo território que não poderia. Tudo cheio de cores azuis e rosa em vários tons. Uma antiga capela continuava no lugar, diferente: nela a gente escorregava no chão, como num tobogã. Quem fez a capela assim? Queria ler o que estava escrito nas paredes e não conseguia.

Me escondendo, vi em outra sala uns homens dentro de banheiras, dormindo.

DO MESMO JEITO

que ela uma vez achou num texto meu um pouco de si, eu vi num poema seu tudo o que eu posso dizer sobre o que está acontecendo.

Poema parco

E o que se tornará
Além dessa ânsia de abismo
Dessa certeza de ar
Desse chão que evapora?

Seu efeito
Tenho certeza em abismo
Palavra em desmembramento de significante
O concreto não delineado, chão a evaporar
Mas quero por algum motivo
Essa textura de nuvem, esse movimento
Premeditado, essa conversa muda

vanessa soares de paiva, s/d.

Além disso:

– sonhei que era uma bandida num bairro como o Ipiranga, mistura de centros velhos de cidades diferentes, casas coloridas, gangues. Uma feira de livros, eu via a coleção da Perspectiva – e conseguia ler o que estava nas capas! Tinha ao menos os clássicos, O teatro épico de Anatol Rosenfeld e o Personagem de ficção – leituras do primeiro ano de letras. As capas eram antigas, amareladas, mesmo o laranja tinha muito de amarelo. Um senhor desdentado no meio da rua puxa briga comigo, tira a peixeira, eu tiro uma faca também e começa a luta, interrompida pelo despertador.

– há mais, mas a chuva é muita, mas eu preciso dormir.

EM DEMOLIÇÃO

todo um bairro indo abaixo.
Tudo ao mesmo tempo, várias casinhas transformadas em nada, terreno amplo e livre para novos prédios.
Parecia, e no sonho comentávamos, o que está acontecendo agora com aquela região perto do largo de Pinheiros e o largo da Batata.

Eu resolvi dar uma volta a pé pelas ruas que estavam vazias, para ver as máquinas e o que sobrou das construções antigas. O trabalho ainda não estava terminado, em alguns casos pedaços das casas sobravam.
Pensei em pedir a quem estava comandando aquilo que pelo menos as fachadas das casas e dos predinhos fossem mantidas, e em cima delas fosse crescendo os novos prédios.

ERA UM LUGAR

perdido como outros, ao acaso como todos os que eu procuro, esquina depois de esquina.

Era a rua Mazini, nome que eu guardei para não perder a vista, os barrancos cheios de entulho, um galinho (ele estaria lá mesmo?) no meio da madrugada, depois da busca dos churros da rua Ana Néri. Hoje de novo me lançando às ruas passei muito por perto, largo do Redentor. Mesma exploração de recantos cinza e úmidos, mesmos pretextos para não parar.

CÍRCULOS CONCÊNTRICOS

foi com essa imagem na cabeça que eu fui pra cama ontem dormir.

Ela surgiu encostando no travessseiro, e mais mil outras que eu não vou saber dizer. Surgiu como imagem para eu conseguir falar ao mesmo tempo do gênero autobiográfico, do livro Bardadrac, do Genette (tema da aula), da minha pesquisa e do trabalho dos alunos. Mas pensando agora, não é exatamente de um mesmo centro que esses círculos podem partir. Ainda pode ser que vale a pena, mas fico me perguntando agora se a imagem de uma corda não seria a que mais caberia ao que eu tento mostrar na aula, na minha pesquisa. Se não é a minha maneira de ver as coisas, unidas por semelhanças que se interrelacionam mas não necessariamente percorrem todo o caminho.

Voltando aos meus pensamentos na hora de dormir, eu só lembro que eu disse a mim mesma, “é muita coisa que você está pensando, não seria melhor você se dedicar agora para dormir bem e acordar bem disposta amanhã?”

Devo ter tido sonhos com temas outros que a minha aula, que eu vou dar hoje para a disciplina de que sou monitora. Mas tudo se foi embora. Antes disso, tive a atitude de levantar da cama, pegar o celular que despertou no horário correto (bem cedinho, porque dou uma aula particular antes da aula da graduação, às 7h30), desligar o modo despertar e deixá-lo do meu lado na cama.

Como se eu quisesse também colocá-lo para dormir, que ele parasse de tocar e assim de me fazer esquecer de algumas coisas.

FOMOS VIAJAR

para São Petersburgo, minha vó, minha mãe, minha irmã e eu.

Destino insólito para elas. Pegamos um trem para chegar na cidade. Antes, como fomos parar lá, ou por que, não sei. A paisagem quebrava minhas expectativas, achava que tudo seria muito plano, mas as montanhas eram muitas. Eu via coisas que elas não viam, muitas casinhas que se acumulavam, coloridíssimas, nas montanhas.

Algo como os morros cariocas, mas com um toque de Michel Gondry (ontem vi A natureza quase humana, com certeza é por isso).

nada novo ou difícil de perceber: as semelhanças visuais de Human behaviour e Human nature

Descemos do trem e podíamos ver melhor essas montanhas que se estendiam à nossa frente, em toda parte. As casinhas eram como caixas de fósforo.

Passeamos, deu fome justo quando a gente avistou do outro lado do rio o museu Hermitage. Mas não era o Hermitage, era uma mistura da ópera de Sidney com o museu d’Orsay de Paris – ou o Grand Palais…

Mas antes de entrar no museu a gente precisava comer. E aí veio a questão de não saber falar russo. Eu pensei: vou ter que servir de intérprete para todas elas! Minha mãe disse que ia tentar falar português. Chegamos num mini-mercado e não é que lá as pessoas falavam português? Uma moça que colocava os preços só não queria dar na cara que era brasileira que tinha emigrado para a Rússia.

OS SCANNERS

têm a personalidade mais delicada que a das impressoras.
Pouco tempo tenho um. Quis até que ele fosse independente da impressora, que não fizesse parte de uma multifuncional. Que ficasse com sua finura de catálogo logo acima. Mas ele me magoa.
Não liga, não vejo luzinha sob o vidro.

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O scanner não liga.
Ele está ligado à tomada?
Vejo que não. Vou e conecto a tomada. Desligo e ligo tudo, plugues que ligam ao aparelho, ao adaptador, que vai conectado no estabilizador, que se liga numa extensão e a um benjamin para chegar à tomada. Tenho medo, quando pequena eu tomava muito choque.

Mudo de tomada, preciso ainda de um benjamin rosa, meio fraquinho.
Nessa mesma tomada eu ligo o circulador de ar – durmo com edredom e circulador de ar – e o circulador de ar demora para começar a funcionar. Tenho que pôr e tirar várias vezes a tomada sempre está escuro, tenho que iluminar a tomada com a luz do celular.

Mil variáveis, um mesmo resultado me chateia: o scanner não está ligando.