EU QUERIA ESCREVER

achei que a hora tinha chegado; aí peguei umas fichas do meu pai, uma caneta esferográfica azul numa gaveta da cozinha. E comecei. Fui desenhando as letras que eu via: a marca da televisão, os rótulos das latas, caixas e garrafas, um aviso na rua, os letreiros todos que eu conseguia ver, no ponto do ônibus na Cardeal Arcoverde com a Lacerda Franco. Ali em frente tinha uma gráfica. Dali para onde estávamos indo? Não sei mais.

Enchi umas duas fichas de letras, que estão guardadas até hoje. Escrevia? Talvez hoje eu diria que para mim escrever é escrever com os outros, para os outros, a pedido de alguém.

NO ESCRITÓRIO

eu tinha horário para chegar e para sair; não podia chegar depois, nem sair antes; mas muitas vezes chegava antes e saía depois, muito depois. Ia de sábado por escrúpulo: muito trabalho acumulado. Contava horas extras no fim do mês. Cultivava a rotina: ir ao mesmo supermercado, comprar o mesmo pacote de bolachas integrais; fazer as mesmas piadas com os colegas; rir e se exasperar com as mesmas mensagens do chefe; levar para ele a mesma caneca de café; ir à mesma livraria na hora do almoço. Algumas variações: às vezes um restaurante, almoço de negócios, eu, a assistente, mocinha estranha que se veste com a calça do pai. Um diretor de outra empresa, no telefone, me cantava ‘ô Anna Julia!…’. Toda sexta baião de dois e suco de limão na casa do norte, antes de escolher uma pilha de filmes para assistir em casa.

DO QUE EU NÃO VEJO

há quem veja por mim, fora do meu alcance, sem que eu possa ter o mínimo controle, os fatos; alguém, que vê o que não estou vendo, olha pra mim com cuidado (ou mesmo sem) e me diz, certeiro: – Ana, não é assim.

Fico feliz por isso: pela amizade, por contar com o que me falam, palavras tão evidentes, verdades que não entendo, coisas que eu nunca veria sozinha.

ESCREVO UMA HISTÓRIA

em que ele é meu personagem; haverá diferenças, é claro, entre a pessoa e o que ele é em meus escritos. Não sei, no entanto, se ele lê o que eu escrevo. Na suspeita (ele é meu leitor?), escrevo para que ele se reconheça na leitura, que tenha, nas entrelinhas, alguma segurança em dizer – isso sou eu também! Como se fossem cartas para ele mesmo, noticiando coisas minhas mas também dando conta do que ele é para mim.

CADERNOS DE INFÂNCIA

já tem um lugar especial nas lembranças que ligo às leituras. Juntamente com seu tom ao mesmo tempo único e comum a outros maravilhosos memorialistas (observo uma mesma vista embaçada que se volta ao tempo de criança no campo, o espaço da casa, a réstia de luz que também percorrem a Infância de Graciliano e A idade viril de Leiris, construídos em fragmentos, em pequenos seixos), vivi com ele ou por conta dele uma terrível sensação de desmaio hoje, no ônibus.

Norah falava sobre a cicatriz de seu dedo, perdi a pressão, tive que fechar o livro rapidamente. A tempo consegui me sentar, uma senhora de aparelho dentário me ofereceu água de coco, um moço me deu uma barra de cereais.

O aperto frente à narrativa das feridas de infância, tão presente em outros textos igualmente belos e hipnotizantes, me tocou no corpo dessa vez.

HOJE EU QUERO SAIR SÓ

o clipe dessa música saiu bem na época em que eu vim passar férias no Rio com a família. O colorido do centro da cidade me encantava, era um outro ar, mesmo que parecido, diferente do centro de São Paulo que eu gosto tanto.

Era julho, tinha Copa do mundo como teve este ano. Uma noite eu liguei pro Teleguiado, aquele programa com o Cazé, ele me atendeu. Sempre tinha pensado em pedir o ‘Devil’s haircut’, do Beck; mas como era copa a gente precisava pedir clipes de músicas brasileiras. Então não teve outro.

Tanto o Beck como o o Leninne estão em seus clipes andando pela cidade.

A letra também me convinha um tantinho, lá em 1998. Hoje talvez um pouco mais do que antes.

ALGUMAS REGRAS

eu nunca entendi direito. Ia jogando porque as regras não são a razão do jogo. Algumas vezes elas são incompreensíveis, como nas explicações de manual, nos arquivos de ajuda dos jogos do computador. Mais vale olhar para o tabuleiro, juntar pecinhas, apertar botões sem critério, perder repetidamente, acompanhar o conselho de alguém que sabe mais, lembrar de outros jogos, intuindo. Truco, por exemplo, adorava ver as pessoas gritando e dando risada, batendo as cartas na mesa, trocando olhares, sem ter ideia da regra mais elementar que guiava tudo aquilo. Que mais era necessário?

AQUELES DIAS

acabaram. É a notícia que se mostra no dia que começa, o sol fresco. A água de novo.

Acabou – alguém repete. Uma voz dentro. Mas só se sabe que aqueles dias acabaram porque eles ainda estão aqui, ao redor, em cada pedaço de tudo. Como no livro, “tudo está em tudo”. Se tudo está em tudo, “por que se preocupar?” – é o que ouvi e fui repetindo, a caminho do bebedouro, encher a minha garrafa.

Acabou, mas se repete.

A EXPLICAÇÃO

mais simples é geralmente a correta. Algo assim, aproximadamente, grosso modo.

Mas dentro dessa explicação surge um exemplo: como definir a cor do céu?

dizem:

É claro que o céu é azul, sabemos disso só de olhar para ele, mas de que tom de azul ele é exatamente? Qualquer um que já tenha se envolvido em uma discussão para ver se uma meia escura é preta ou azul-marinho consegue compreender a influência de nossa visão de mundo e como ela afeta nossas decisões.

O que eu vejo agora? Tudo sem nitidez. Mas como já disse Wittgenstein, às vezes precisamos justamente da imagem borrada. Ficar sem os óculos, resgardar-se, procurar um reduto, refúgio, lugar de uma fuga. Forno, casulo, geladeira, toca.

O LEITOR

procura no texto a vontade do escritor de conquistá-lo.

E o escritor-fantasma, como do filme do Polanski?

Ele simplesmente de nada entende. Como ele está num filme de suspense, saber de nada (nem dos acontecimentos da política – nós não lemos as notícias mas sabemos cativar o público e vender milhões de livros) se torna o charme que atrai o espectador, que se diverte. Isso porque não sabem (escritor-fantasma e espectador) o que o autor morto do manuscrito (um ghost writer que precede o nosso) deixou como mistério a desvendar. Jogos de dobras e desdobras.