INDO E VINDO

do hospital semana passada, na primeira ida pensei: esse lugar que nos afasta da doença, da morte. Que coloca tudo num mesmo fundo branco, um mesmo cheiro que não é cheiro de nada: assepsia, silêncio, frieza.

E como era tudo num certo antes que não temos mais: dos partos às mortes, tudo acontecia aqui no quarto, ao lado, no contato. Agora, diagnósticos por imagem, e não vemos mais quem sofre.

Ainda voltei ali mais vezes; e voltando, recorri a  imagens de hospitais, de filmes – me veio logo Fale com ela, depois a maca de A vida secreta das palavras (e Srta. Cora do Cortázar), os sanatórios como em O sopro do coração, ou mesmo Um estranho no ninho -, os seriados – Plantão médico que eu via tanto na tevê, e o número considerável de séries médicas, já um gênero à parte.

A repetição: dos turnos de enfermeiros, a visita diária rápida da médica que tem tudo a dizer na ponta da língua, as refeições com sua montagem e disposição, trouxe um pouco do sociável, dosado de acolhida e distância.

Talvez por ter uma cama ali para mim, por eu ter levado livros, por ganhar um tantinho de comida. Por ter uma abertura, mesmo que mínima, de janela.

Talvez por eu poder reencontrar ali, em outro cenário, os mesmos personagens com quem convivo, num roteiro desconhecido. E viver outras cenas, falar outras palavras.

NÃO DIZER NADA

mas mostrar.

Coreografar os mínimos movimentos cotidianos, arquitetar todos os planos em espaços milimetricamente simétricos, ou quando não, ao menos demarcá-los muito bem, para que neles as cores falem por si mesmas, que os olhares cúmplices digam tanto quanto as velhas canções. Mostrar que as coisas não são naturais.

O que resta do tempo” tem muito do humor silencioso de Buster Keaton ou de Jacques Tati (fiquei com medo de essa minha impressão durante o filme ser um lugar-comum), tanto pelo vazio-cheio do cotidiano, como pela própria presença deles frente às câmeras. Eles circulam por entre os outros personagens menos para agir do que para multiplicar e desequilibrar o olhar.

Elia Suleiman traz a história de seu pai e de sua mãe, mais do que a história de seu retorno à casa; e é menos uma tentativa de contar a ocupação do que simplesmente contá-la como se pode, com o silêncio resignado e resistente, com esmero em criar coisas belas. De um mesmo belo de “Paradise now”, outro palestino.

Suleiman fala de outro retorno seu a Nazaré em “Crônica de um desaparecimento“, que está completo no youtube, assim como “Intervenção Divina“, entre vários outros filmes palestinos . Uma experiência e tanto, ver um longa no youtube em várias partes…

E mesmo assim, pensando nas experiências que são os filmes, não consigo evitar: adoro essas fotos de Cannes, que mostram talvez a razão de ser do cinema.

NÃO SALVAR, PERDER

para sempre?

Muitas vezes fico pensando nas coisas feitas no computador que foram perdidas, seja por falta de backup, seja simplesmente por não ter guardado, não ter feito um arquivo – ou, mais grave, porque o arquivo foi salvo, o backup foi feito, mas em disquete, ou num cd que não funciona mais. Isso faz pensar que ao menos no papel é mais fácil guardar e não perder. Que quanto mais avançados os suportes de armazenamento, menos eficazes eles serão, e menos perenes.

O instinto de guardar os trabalhos para a faculdade é mais evidente. O que dizer de páginas da internet, blogs, conversas no icq, participações em fóruns?

Ao menos para as páginas públicas na internet há um recurso de ouro: o Internet Archive Wayback Machine, parte do grande site feito por uma organização sem fins lucrativos que reúne também arquivos de áudio, vídeo e trabalha em parceria com a Biblioteca do Congresso e o projeto Gutenberg.

Às vezes me esqueço da existência dele, e fico lamentando os blogs perdidos. O Luís, simples, me lembrou do Wayback (ele é quem me apresentou?) faz alguns dias. Corri para lá e recuperei duas jóias de 2003.

A primeira: “o porquê do quintal”, blog autobiográfico do Sérgio, que eu lia com encantamento, esse Sérgio que na época era alguém já querido mas que escondia ou se fazia ver por meio de bichos, trechos de livros, letras de música, falas de filmes e histórias sinceras.

As coisas mudam e continuam as mesmas. Na época eu fazia também uma pequena autobiografia, para uma disciplina da faculdade; me ajudou muito ler o que o Sérgio escrevia, embora hoje o que me tinha sobrado não era o conteúdo em si de suas lembranças, mas o ar de infância que é o dele. Isso é coisa para continuar em outro post.

A outra é “cinebase”, projeto paralelo do grande blog sobre rádio, radiobase. O Marcos Lauro tinha me convidado para participar do cinebase escrevendo sobre filmes, coletando notícias. Eu sempre salvei todos os meses meu colher, mas o cinebase deixei de lado, não tinha salvo nada. Foi surpresa que li minhas críticas de filmes ótimos daqueles meses de abril a julho de 2003: Chihiro, Confissões de uma mente perigosa, A festa nunca termina, etc. Eu até assumi um certo ar de “crítica jornalístca”, colocando números, relacionando atores aos seus trabalhos anteriores, etc.

Achei tão legal me confrontar com esse eu-lá-de-anos-atrás que eu vou republicar alguns dos textos, seguidos da imagem que tenho hoje. É uma idéia.

CÍRCULOS CONCÊNTRICOS

foi com essa imagem na cabeça que eu fui pra cama ontem dormir.

Ela surgiu encostando no travessseiro, e mais mil outras que eu não vou saber dizer. Surgiu como imagem para eu conseguir falar ao mesmo tempo do gênero autobiográfico, do livro Bardadrac, do Genette (tema da aula), da minha pesquisa e do trabalho dos alunos. Mas pensando agora, não é exatamente de um mesmo centro que esses círculos podem partir. Ainda pode ser que vale a pena, mas fico me perguntando agora se a imagem de uma corda não seria a que mais caberia ao que eu tento mostrar na aula, na minha pesquisa. Se não é a minha maneira de ver as coisas, unidas por semelhanças que se interrelacionam mas não necessariamente percorrem todo o caminho.

Voltando aos meus pensamentos na hora de dormir, eu só lembro que eu disse a mim mesma, “é muita coisa que você está pensando, não seria melhor você se dedicar agora para dormir bem e acordar bem disposta amanhã?”

Devo ter tido sonhos com temas outros que a minha aula, que eu vou dar hoje para a disciplina de que sou monitora. Mas tudo se foi embora. Antes disso, tive a atitude de levantar da cama, pegar o celular que despertou no horário correto (bem cedinho, porque dou uma aula particular antes da aula da graduação, às 7h30), desligar o modo despertar e deixá-lo do meu lado na cama.

Como se eu quisesse também colocá-lo para dormir, que ele parasse de tocar e assim de me fazer esquecer de algumas coisas.

COM SONO, SEM PALAVRAS

e decidida de que ler na cama, antes de dormir, é algo difícil para mim. Difícil porque eu não consigo parar de ler até chegar ao fim do livro!

Foi o caso de Retalhos, de Craig Thompson, que eu peguei ontem para ler. Pensei, umas 20 páginas e eu durmo. Que nada! Não consegui parar de ler até o final. E imagine, são 582 páginas. Só depois das três da manhã eu consegui desligar a luminária e começar a dormir. Dos meus sonhos desta noite não lembro nada, talvez ainda na cabeça resquícios da história de Craig, que tão melodiosamente reúne traumas, tristezas, religião, desenhos queimados e um amor perdido. Lindo!

Impossível não pensar em outros quadrinhos autobiográficos excelentes como L’ascension du Haut Mal, Fun home ou Persépolis, que também abrem mão de uma profusão cores em nome do preto e branco – exceção leve a Fun home, que tem uma atmosfera azul claro.
O traço é trabalhado de maneiras muito simples, deixando ver às vezes o movimento da pena, o encadeamento das memórias de diversos momentos da infância e da adolescência faz mergulhar num universo muito próprio, repleto de medos e angústias, mas também muito típico – ao menos para mim… Um universo no qual muitas vezes não se sabe que fronteira há entre os sonhos e as memórias.

ALGUMAS COISAS RÁPIDAS QUE PRECISAM SER DITAS

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pensei ontem que uma das coisas que fazem a vida valer a pena, para mim, é contar e ouvir histórias.

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acho que não sou uma pessoa organizada, mas que gostaria de ser; quase sempre estou arrumando meu arquivo (aqueles cinzas de escritório), as estantes, os armários; não dou conta! jogo fora quilos de papel, para a reciclagem…

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consegui vender bem rapidinho um livro na estante virtual; achava que ia ficar lá por anos, mas dá certo! fica a dica.

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quem frequenta os cinemas da região da Paulista já deve ter visto um senhorzinho de bengala, gordinho e de cabelos brancos, foi ao festival de filmes de surf e ao noitão do hsbc; é alguém com quem vale a pena conversar enquanto o filme não começa.

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última vez que conversei com ele foi segunda passada, me deu dicas de como sobreviver ao mestrado, falou da letras durante a guerra com o mackenzie em 1968; imagina o que era estudar russo naquela época, com a ditadura começando a pegar pesado.

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a gente foi ver o documentário dos titãs na segunda, fiquei feliz e ao mesmo triste (o que já falei deles aqui explica porque feliz e triste)
– o tempo passa…

SOU MAIS DA PROSA

que da poesia, e o que me atraiu ao livro de Nathalie Quintane, Começo (Début), publicado em 2004 pela 7letras e Cosac&Naify, foi o sub-título entre colchetes:
[autobiografia]

Je m’appelle encore Nathalie Quintane. Je n’ai pas changé de date de naissance. J’habite toujours au même endroit.
Je suis peu nombreuse mais je suis décidée.

Eu ainda me chamo Nathalie Quintane. Não mudei de data de nascimento. Ainda moro no mesmo lugar. Sou pouco numerosa mas sou decidida.

Assim ela se apresenta no site do seu editor, onde ela mantém uma produção considerável, regular e constante. Além das publicações, Nathalie faz leituras públicas e vídeos de seus poemas.

Autobiografias em poemas como Começo, que se assumem como tal, são menos comuns, mas existem. Nesse caso, Nathalie página a página, com poemas em prosa e com a dicção da prosa, recupera momentos e objetos da infância, adolescência, até um fecho pouco positivo, “a entrada no mercado de trabalho”.

Acho que se pode ver os poemas de Começo como um todo, ou pelas seções que dividem o livro e ficam cada vez menos marcantes, ou separadamente.
Prefiro considerá-los pelas seções, deixar algumas dessas seções de lado, e dizer que as que mais apreciei foram as iniciais. Talvez as menos autobiográficas, uma vez que elas discorrem sobre fatos corporais, as sensações destacadas da inércia rotineira. Me lembrou Amélie Nothomb e sua vida de bebê-cano, que ela narra em Metafísica dos tubos.
Um trecho:


Começo 4

Porque não nasci com uma colher na boca, é preciso a cada vez que ela chegue de fora.
(…)

Porque o meu nariz não cresceu para dentro, é o fora que eu respiro.
(…)

Porque os meus ossos estão ligados por nervos e por músculos, sou feita de uma só peça.
(…)

Só de botar o dedo na água, sente-se bem que não é assim tão natural que ele esteja normalmente no ar.

Desnecessário dizer o seu nome corretamente para saber que é este aí.

A constante descoberta do corpo como movimentos e possibilidades me pareceu um traço da poesia de Nathalie. Falo isso também por conta do vídeo a seguir:

O blog da revista Modo de usar fala melhor que eu sobre a autora e apresenta outro trabalho em áudio. Tudo devidamente traduzido para o português. Legal saber que eles são da livraria Beringela, um lugar muito bacana que visitei lá no Rio.