
fiz esse desenhinho, planejando continuar outros na mesma linha; pensava também, por outro lado, que eu precisasse de roteirista em parceria.

fiz esse desenhinho, planejando continuar outros na mesma linha; pensava também, por outro lado, que eu precisasse de roteirista em parceria.
não é uma boa versão em português para o título original do filme de David Robert Mitchell, The myth of the american sleepover. O mito americano da festa do pijama também soaria estranho para um filme que foge a qualquer lugar-comum do gênero filmes-de-festa (que não deixam de ser bons também) para explorar as pequenas aventuras de um grupo de jovens no último fim de semana antes da volta às aulas: a paixão à primeira vista, a procura por colegas de escola que já estão longe, querer fazer algo simplesmente diferente.
O filme todo é costurado em conversas, em pequenos amores que não acontecem nunca aos pares (ao menos um personagem observa outros dois), com diferenças de tempo e espaço (uns mais ou menos longe da infância), com procuras fracassadas que levam a outra coisa, resultados inesperados.
Tão saboroso quanto um fim de semana de festa, de passeio, que fica a vontade de rever e que ele seja mais visto – que o filme saia, mesmo que timidamente, em circuito.

é ao mesmo tempo a personagem mais importante e a menos importante de todo o filme. Ela é um monte de suspeitas e perguntas que aparecem umas atrás das outras, sem resposta – ou com respostas bem menos ambiciosas que as expectativas. Ela é o pretexto para um passeio sem rumo de tarde, com previsão de chuva, de ônibus, cortando caminho pelo parque, de volta no fim do dia à estação de trem. Passeio cheio de olhares e de conversas sobre nada, depois do qual se volta ao ponto de início.
Foi o primeiro filme que eu vi do Rohmer, no cinema, anos atrás. Depois de rever agora, o passeio continuou assistindo Nadja à Paris, (documentário?) que não me agradou tanto quanto A mulher do aviador, mas traz muito dessa rede de pretextos que levam as pessoas de um ponto a outro da cidade.

de novo um título que me chama; os elefantes são obras de Dostoievski traduzidas do russo para o alemão por uma ucraniana, Swetlana Geir, hoje já velhinha, passando de um cômodo a outro da sua casa, nas tarefas de todo dia: cortar cebolas, alinhar as fibras da roupa com o ferro de passar, juntar a família, trabalhar com os textos. E o trabalho, do qual não se sai impune (e não se entra sem razão alguma), não se faz apenas sozinho.

E em dupla, como num jogo de tabuleiro, ela nos dá uma lição: em vez de olhar só para o texto, o nariz virado para o umbigo, os olhares se levantam para o outro, e assim o nariz respira o texto que emana do papel.
tanto nos meus sonhos – de carro e a pé, junto com minha professora, dizíamos que qualquer caminho vale, que todos, por mais sinuosos e complicados que sejam, levam ao ponto de chegada. Subíamos de carro umas ruas arborizadas, cheias de casinhas, como se fosse ali pelo Pacaembu, mas com um ar mais hospitaleiro, não sei dizer. Chegávamos num ponto alto, um prédio antigo, janela ampla, festa no primeiro andar. – É uma festa de médicos, eu dizia.
como na vida – e indo e vindo, lá e cá, uma coisa vale pela outra: vale pelas pessoas e pelos abraços que dou e recebo, partindo e chegando.
não era a única fonte; mas foi mais dela que vieram os novos traços azuis que eu via. Num ponto do passeio pelos limites do arame farpado, a cerca era baixa, um tronco caído facilitou a nossa passagem. Depois de histórias, ossos, circulação sanguínea, formigamento, veias, fraturas, hematomas, posição de dedos, mãos que se encontram, uma ferida me veio, voltando a atravessar a cerca. Estava olhando para o alto enquanto minha coxa direita ficou: quatro cortes seguidos, fundos, cada um com que doeram logo de início, sangraram, pintaram a outra coxa. A dor ainda se movimenta, sob a luz difusa de um sol que se esconde, cheia de calor querendo chuva, nos quatro traços preenchidos de vermelho, emoldurados de rosa. A vontade de que fique uma cicatriz.
os dedos se seguraram entre as páginas do livro e veio um pouco de sono. Não demora nada e eu começo a sonhar com alguma coisa: de tão interessante, genial até, algo consciente quer se manifestar, comentar, guardar. É quando acordo e percebo que me esqueci de tudo desse pequeno sonho. Só lembro que conversava animadamente sobre Barthes, uns sorrisos, talvez alguns personagens – não sei se vontade minha de que eles estivessem ali, coisa de sonho que poderia ser verdade.
foi o tema da redação que eu escrevi como castigo a uma ousadia minha. Havia duas professoras de português: uma para o 1ºH, outra para o 1ºI. Uma delas me dava carona, a que não me dava aula. O que devo ter feito para merecer bronca: deixei claro para as duas que elas não se gostavam uma da outra. Tive que assumir a culpa por ter feito comentários desnecessários (afinal, o que eu disse não devia ser novidade para elas) frente a toda a classe, que ao meu ver não precisava tomar conhecimento do que eu fiz.
A redação, pode ser que eu a tenha guardado junto com os papéis da escola, como outras, que não eram de castigo. Já o poder da palavra ainda hoje não consegui entender.
foi o que eu perguntei. Ao que recebi uma resposta em forma de pergunta:
– Por que não?
Pergunta menos incômoda do que intrigante. Não tenho nada de novo a dizer (até essa conversa já aconteceu e se repete agora dentro de mim), mas mesmo assim digo. Como se fosse um hábito.
e queria ir muito à cobal do Humaitá – vontade recorrente de sonho. Estava com umas moças. Elas queriam ir de ônibus, não estávamos longe. Perdemos alguns, mas chegou um em que todas subiram: um ônibus com um bufê de degustação. Entre os bancos, uma mesa comprida com geleias, licores, pães e bolos. Numa parte mais acima, coisas de chocolate: brownie, brigadeiro. Sentei logo depois da porta; parecia só haver mulheres naquele ônibus. Uma moça servia a todas as outras, passava geleia num pedaço de pão que eu peguei, com uma faquinha de plástico. Ela misturou geleia de figo com morango.
Uma das mulheres que comia no ônibus era uma professora de espanhol, que conversava sobre uma fruta, ‘delique’, típica do Havaí. Eu já via essa fruta: era um morango mais estreito e amarelo, que crescia em árvores frondosas.