NESTE FILME

a mesma ponte – Bir-Hakeim, viaduto de Passy, Paris – de outros filmes

parece que estamos brincando de cabra-cega: o expectador (aquele que espera, sabe do tempo dessa brincadeira, e que o filme chegará ao final e alguma resposta vai aparecer no desenrolar dos créditos, a resposta que ele aguarda chegar) deixa que a venda pouse sobre seus olhos, que cubra a vista para que então as coisas possam ser descobertas.

Ele se deixa enganar – procurando significado em tudo, nas mínimas palavras, nos olhares mais furtivos – como o protagonista do filme constrói a armadilha que vai enganá-lo.

Tudo é estranho então? Talvez não. A venda não esconde tudo – ela mesma mostra algo. O expectador vendado, na brincadeira, aceita o que lhe cabe, inquieto.

ENCONTRAVA DOIS COLEGAS

com quem trabalhei. Um deles ficava quieto me observando, sorrindo às vezes. Outro queria conversar comigo, mas tudo o que ele falava era incompreensível, precisava perguntar duas ou três vezes o que ele queria dizer. Algo me faltava: atenção, audição, contexto (ele me falava de algo que só depois, no sonho mesmo, eu descobri que era um site sobre cinema). Perguntei sobre o filho: acho que ele quis evitar o assunto.

DO QUE EU NÃO VEJO

há quem veja por mim, fora do meu alcance, sem que eu possa ter o mínimo controle, os fatos; alguém, que vê o que não estou vendo, olha pra mim com cuidado (ou mesmo sem) e me diz, certeiro: – Ana, não é assim.

Fico feliz por isso: pela amizade, por contar com o que me falam, palavras tão evidentes, verdades que não entendo, coisas que eu nunca veria sozinha.

AS PEQUENAS COISAS

dos filmes do Rohmer, em meio às conversas que nunca terminam, os passeios, as viagens, são as que mais ficam. Agora terminando um texto, virando o dia sem dormir, começam os primeiros passarinhos cantar. Aí me vem “a hora azul” de Reinette et Mirabelle, no meio do mato; o raio verde do pôr-do-sol na praia, durante as férias de uma menina deprê e sem rumo; o joelho de Claire na paisagem alpina; o chapéu azul da duquesa; uma aula de francês para crianças; uma festinha nos anos 80; um menino indo embora na estação de metrô; encontros num bar.

Sozinha o tempo todo, procurando o raio verde, ele aparece quando ela está do lado de alguém.

E por aí vai.

DEIXA

pra lá, não pega, não leva agora. Você precisa mesmo disso? Posso ir atrás depois, mais tarde. Agora não, assim tá bom, como está. Calma. Não é pra gritar. Não precisa chorar. Não importuna, você está enchendo o saco. Não tou afim de falar. Reclama menos das coisas. Ainda tem tempo. Amanhã é melhor, hoje não. Deixa eu falar, não estressa. Você não sabe como é. Pra que sair correndo? Ela é quem sabe. Você quer controlar tudo. Você não tem ideia de como é difícil. O que você tem a ver com isso? Os incomodados que se mudem. A vida não é do jeito que você quer.

BEBÊS FALAM

nos sonhos de muitas pessoas, me disse o Sérgio quando contava que tinha um deles que falava num meu. Ele era pequeno, filho sabe-se lá de quem. De todo mundo e de ninguém. A família toda, numerosa, se espalhava pelos cômodos da casa. Talvez a casa fosse grande (mas não chique) porque aqui fui num tipo de “casa cor”, na futura casa do governador Gaguim.

Fora isso, vida de poucos sonhos marcantes, por ter dormido pouco todos os dias, e dias sem dormir nada mesmo. Madrugada de sábado para domingo passei entre o sono e o despertar, calor, ar condicionado fazia muito barulho.

Os dias já são amarelos e azuis, ritmados pelos jogos da copa.

Os fins de tarde, céu que é uma redenção.

MEU CPF PERDIDO

ou talvez o cpf de todo mundo tenha sido cancelado.

Sei que eu pelo menos deveria fazer um novo cpf. Fomos todos a um tipo de poupa-tempo. Uma sala onde senhores distribuíam, com um critério desconhecido, senhas. Uma hora um senhor dizia: – Só para os homens. Depois: – Só para as mocinhas!… Aflita, fiquei atrás de um senhor que decidiu me entregar a senha, que já era uma ficha para preencher.

Todo mundo acabou conseguindo a sua ficha.

Fui num balcãozinho preencher meus dados. A caneta que eu tinha era vermelha, uma bic comum. O número do meu cpf, eu tinha esquecido, e no sonho ele foi me aparecendo diferente do que ele é na realidade. Mesmo assim, fui preenchendo com esse número estranho, que me ludibriava.

Ele mudava, se esquivava. Eu rasurava a ficha, que ficava amassada, com dobras fortes.

Na hora de assinar, eu fiz o movimento de mão habitual e a assinatura saiu muito diferente. Fiquei aterrada, preocupada. E agora, com essa assinatura diferente, como é que eu vou apresentar essa ficha?

Como terei duas assinaturas diferentes? E se descobrirem, compararem?

Um amigo chega meio bravo e apressado, dizendo que ele mesmo tinha conseguido o cpf novo, depois de pegar uma fila. Eu ainda tinha que apresentar a ficha. Estava atrasada.

As pessoas estavam impacientes, não queriam ficar me esperando, enquanto eu hesitava sobre essas novas informações que apareciam a meu respeito.

“PORQUE O REI

fazia questão que sua autoridade fosse respeitada”.

Assim é o monarca que o Pequeno Príncipe encontra em sua viagem. É uma das personagens que mais me marca no livro. Isso porque tem uma sabedoria muito prática:

– Se eu ordenasse a meu general voar de uma flor a outra como borboleta, ou escrever uma tragédia, ou transformar-se em gaivota, e o general não executasse a ordem recebida, quem – ele ou eu – estaria errado?
– Vós, respondeu com firmeza o principezinho.
– Exato. É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, replicou o rei. A autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, farão todos revolução. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis.
– E meu pôr-do-sol? lembrou o principezinho, que nunca esquecia a pergunta que houvesse formulado.
– Teu pôr-do-sol, tu o terás. Eu o exigirei. Mas eu esperarei, na minha ciência de governo, que as condições sejam favoráveis.
– Quando serão? indagou o principezinho.
– Hem? respondeu o rei, que consultou inicialmente um grosso calendário. Será lá por volta de… por volta de sete horas e quarenta, esta noite. E tu verás como sou bem obedecido.

DURANTE A PROJEÇÃO

de Viajo porque preciso, volto porque te amo, me veio o sonho que eu tive, talvez hoje mesmo, talvez poucos dias atrás. Eu já sabia, hoje de manhã me lembrei, que eu sonhei que era preciso regar as plantas. Eu regava, via a água entrar por meio da terra, os vasos transparentes me mostravam o caminho da água. Também sonhei com um banho de chuveiro que me desagradou. Muita água para me dizer que eu estava com a garganta muito seca, de respirar pela boca. O nariz entupido. Mas isso tudo não foi durante o filme.

Em meio às estradas do nordeste de Viajo…, me veio que eu sonhei com Bye Bye Brasil, que eu não assisti, ou se assisti não lembro.

Vi no filme o que posso estar vendo em outros lugares: um álbum, feito de recortes e vozes perdidas. Destoa quando o tom muda: quando a música não é mais do rádio do carro, quando a narração vira entrevista. E recortes de um diário, como preparação de outra coisa – dos filmes de Karim Aïnouz e de Marcelo Gomes. Preparação que vemos depois dos filmes que se seguiram essa viagem, essa coleta de imagens e visitação de um imaginário.

Na volta para casa fiquei puxando a história do meu sobrenome. E descobri que talvez ele tenha vindo do nada.