GRANDES ESPAÇOS

são constantes nos meus sonhos. Grandes e lindos, eles muitas vezes se movem.

Foi o caso de um sonho muito bonito, semana passada. Estava no apê do Cícero. Era e não era onde ele mora. A questão é que da janela víamos prédios se moverem, como se estivéssemos num trem. Ficamos com vontade de passear e conhecer um desses prédios raros e belos.

Era um mosteiro, algo assim. Estava correndo o risco de ser demolido, mas felizmente conseguiram recuperar a construção. Transformaram num spa, num hotel. Há duas alas, com rampas – algo semelhante pode ser visto em Higienópolis, bem menorzinho do que no sonho.

Uma ala para homens, outra para mulheres. Entramos na ala dos homens, eu invadindo território que não poderia. Tudo cheio de cores azuis e rosa em vários tons. Uma antiga capela continuava no lugar, diferente: nela a gente escorregava no chão, como num tobogã. Quem fez a capela assim? Queria ler o que estava escrito nas paredes e não conseguia.

Me escondendo, vi em outra sala uns homens dentro de banheiras, dormindo.

EM DEMOLIÇÃO

todo um bairro indo abaixo.
Tudo ao mesmo tempo, várias casinhas transformadas em nada, terreno amplo e livre para novos prédios.
Parecia, e no sonho comentávamos, o que está acontecendo agora com aquela região perto do largo de Pinheiros e o largo da Batata.

Eu resolvi dar uma volta a pé pelas ruas que estavam vazias, para ver as máquinas e o que sobrou das construções antigas. O trabalho ainda não estava terminado, em alguns casos pedaços das casas sobravam.
Pensei em pedir a quem estava comandando aquilo que pelo menos as fachadas das casas e dos predinhos fossem mantidas, e em cima delas fosse crescendo os novos prédios.

ERA UM LUGAR

perdido como outros, ao acaso como todos os que eu procuro, esquina depois de esquina.

Era a rua Mazini, nome que eu guardei para não perder a vista, os barrancos cheios de entulho, um galinho (ele estaria lá mesmo?) no meio da madrugada, depois da busca dos churros da rua Ana Néri. Hoje de novo me lançando às ruas passei muito por perto, largo do Redentor. Mesma exploração de recantos cinza e úmidos, mesmos pretextos para não parar.

ESSA HISTÓRIA TODA

de acordo ortográfico, além de movimentar a máquina editorial, as caras consultorias empresariais e dar assunto de conversa em quase todas as rodas (seja na fila do banco, seja no curso de Letras, seja no Jornal Nacional), faz as pessoas pensarem na língua ou não?

Penso nisso além de tudo porque fui ao Museu da Língua Portuguesa esses dias, ver a exposição do Machado (sempre Machado).

No acervo fixo do museu, aquela projeção de poemas, o de Gregório de Matos, muito bem interpretado e realizado com apuro visual, é o único que vem acompanhado da referência da época em que foi escrito: “século 17”. Isso porque seria facilmente confundido com um rap de hoje em dia?


do pouco que conheço, gosto dele, sabe…

Agora com as modificações do acordo, como ficam todas as apresentações fixas do museu? Terão que ser readequadas? Nossa, que trabalhão vai dar.

Não gosto muito das mudanças a que temos que nos submeter: como diferenciar a pronúncia de teia e ideia? Ai que triste…

Será que nessa correção o pessoal do museu vai alterar a grafia de caraoquê (na lista de palavras de origem asiática) para karaokê, como todo mundo usa? Fora o museu e o dicionário Houaiss, poucos são os que ousam escrever caraoquê. Caraoquê me lembra piteça, forma que um daqueles gramáticos doidos queria que fosse dada a pizza.

SEMPRE ME PARECEU

um dever, para mim, a leitura da produção literária brasileira contemporânea – um dever daqueles que eu não sigo como gostaria. Não somente para alimentar o repertório de assuntos em rodas de colegas em festas e jantares. Mas pelo fato de que são obras de pessoas que estão aí, andando pelas ruas, pessoas com as quais podemos encontrar e falar. Já fui apresentada ao Miltom Hatoum, por exemplo, e fiquei vexada de conhecer a obra dele de longe somente. De não ter lido nada, nem que fosse para falar mal. Até hoje ainda não peguei nada do Hatoum para ler… porque a prioridade foram as leituras obrigatórias do curso.

Enfim, mas encontrei no trabalho que fiz em dezembro para a rádio francesa (merci enorme para Daniela Prado) o escritor Bernardo Carvalho, e gostei muito da postura dele, da maneira como colocava suas opiniões. E é um cara respeitável e tudo. Sabia que o último livro tratava da imigração japonesa em São Paulo. Aí fiz o percurso básico até a livraria comprar O sol se põe em São Paulo, lançado em 2007.

E não somente: comecei a caçar na internet entrevistas e coisas do tipo. Enquanto lia ainda o livro, peguei esse texto da revista rascunho, no qual Bernardo levanta as questões que toda pessoa envolvida com literatura (seja escrevendo, seja lendo ou estudando) se faz: para que serve a literatura? serve para alguma coisa ou não tem que servir para nada mesmo?

De uma maneira ou de outra, Bernardo Carvalho leva à sério a reflexão, e a coloca de maneira central neste romance, resultado talvez de um impasse no qual ele se encontrava depois de dois livros bem-sucedidos. Ligado ao pensar-sobre-literatura, ele constrói ao mesmo tempo uma investigação, de retorno às origens, romance de viagem e de aprendizado, coisa do romance por excelência.
Por mais que em alguns momentos force a mão na linguagem, tentando ser muito explícito, ou muito explicativo, o que para mim cansa, aprecio o fato de um livro prender a leitura. E foi o que aconteceu comigo. Lia grudada ao livro.

E viagens distantes, pelo que me parece, estão sendo mais frequentes para Bernardo. Ele que foi ao Japão, para escrever o livro (poderia ter feito como Chico Buarque em Budapeste, escrever sobre um lugar sem ter ido?…) sem ajuda financeira, com poucos recursos próprios, ficou um mês em São Petersburgo por conta de um projeto bem ambicioso, Amores expressos: dezesseis escritores brasileiros em diversos lugares do mundo escrevem histórias de amor, mantêm um blog durante a viagem (o de Bernardo aqui), para que depois os livros sejam adaptados ao cinema. Interessante, não?

Voltando a O sol se põe em São Paulo, uma coisa ele vai deixar comigo: a idéia de que as histórias são essenciais para vida, e que devemos ouvi-las e contá-las, antes de morrermos.