DOIS SONHOS

mãos se estendem; querem pegar ou largar?

no primeiro, a professora me repreendia, criticava, reprovava tudo o que eu fazia; eu me alterava, chorava, tentava me defender como podia; nada adiantava. A professora ria ao me ver naquele estado.

Em outro, eu estava dando uma palestra em conjunto com outras pessoas. Falava de tudo e de nada. Era algo como um relato pessoal sobre questões da educação superior. Defendíamos os cursos amplos, abrangentes, e nos colocávamos contra cursos muito especializados. As pessoas se movimentavam, eu não sabia onde ficar, pra que lado me dirigir.

AVIÕES CAINDO

um atrás do outro. Estávamos na rua e todos os aviões no ar perdiam controle e iam caindo. Horrível vê-los se espatifando em cima de casas, no meio da rua, o barulho de desespero geral. Na televisão, que víamos num bar, o noticiário falando sobre isso. Perguntamos às pessoas o que tinha acontecido. Disseram que os aviões tinham “perdido os nós”. Decidi acordar.

Depois eu tinha que brigar com um cara grande, um armário. Estávamos discutindo, em casa (mas era na Praia Grande), sobre um serviço que ele tinha feito e como pagaríamos. Dei 200 reais em dinheiro. Exigimos o recibo. Ele nos enrolou e não deu. Fiquei com vontade de dar-lhe uns golpes de kung fu, mas ainda sabia pouquinho. E além disso, o kung fu não serviria pra isso. Mesmo assim fiquei treinando uns movimentos.

COM UMA LETRA, B

logo que aprendi a ler, tinha muita dificuldade para diferenciar um b de um d minúsculos. b d d b b d , as barriguinhas pra esquerda ou pra direita?

posso fazer uma lista de músicas para tocar: Beatles, Brian Eno, Beck, Babet, Bénabar, Bidê ou balde, Bebel Gilberto, Björk, Baby Consuelo, Baden Powell, Barbara, Billie Holiday, Bazar Pamplona, Beach boys, Brigitte Bardot, Babylon Circus, Bowie, Beirut, Belle and Sebastian, Bruce Springsteen, Bezerra da Silva, Blur, Brian Ferry, Brisa Roché, Blossom Dearie, Beastie boys. Pego pra ler Barthes, Beckett, Benveniste, Bakhtin, Blanchot, Bachelard, Borges, a bíblia – e Balzac. Faço batata frita, bolo, brigadeiro e preparo uma batida.

FUI VIAJAR

senecio, paul klee

talvez tenha largado tudo, ou talvez as férias já tivessem chegado. Sei que cheguei na cidade cheia de sol, sem mar, só terra seca, uma casinha nova para visitar. Uma senhora de cabelos brancos olhou para mim e disse: – ahn, então é você? – sim! Era só o que eu sabia responder, era como se não falássemos a mesma língua.

E não falava a mesma língua de meu anfitrião, um sotaque forte que escondia toda uma distância que não sabíamos como diminuir. Muita conversa de silêncios. Ele me mostrou as fotos de Akemi, menino com nome de mulher em japonês. Ele dizia que eu tinha conhecido Akemi na viagem anterior. Não lembrava.

Sentamos na calçada da rua calma de sua casa, olhando o céu e o sol, sem fazer nada. Uma televisão ao longe. Eu  via meu anfitrião como um retrato cubista, seu nariz parecia sua orelha, os cabelos uma parte da barba.

Em outro sonho eu era uma camareira de hotel que acaba se tornando próxima de um cantor de rock meio desconhecido. A porta do quarto tinha uma chave como tramela. O cantor de rock adorava conversar com todo mundo. Era como se fosse um Heath Ledger velho, como se ele não tivesse morrido e se tornado cantor barato. Lembrávamos daquele filme em que ele foi cavaleiro medieval, que eu não vi.

RECEBI UMA MENSAGEM

pelo celular, de uma colega de trabalho que voltava da Europa para morar aqui em São Paulo: “caso eu passe mal na rua, corro risco de morte; peço que me leve a um centro especializado, etc. etc.”. Ela tinha uma doença grave que poderia causar uma morte fulminante.

Não conheço direito essa colega. Aos poucos foram chegando informações: ela tinha nascido em Campo Grande-MS, os pais como sabia eram europeus, ela tinha vivido em várias cidades pelo Brasil. Por que estaria voltando para o Brasil, se estava bem em Paris? Como ela tinha meu número de celular?

Um dia no metrô recebo uma mensagem dela: “estou quase morrendo, na estação do metrô…” O texto, interrompido, poderia mostrar que ela estava já num estado muito grave. Por acaso estou numa estação de metrô. Saio desesperada, indo para todos os lados, tentando saber em que estação ela estaria.

Na rua, corro entre os carros, bondes e motos; escapo por pouco de algum me pegar.

A MIM TAMBÉM ME DÓI

foi a única coisa que escreveu, um dia, entre tantos desenhos. Durou pouco tempo, não mais que duas horas: logo a própria polícia veio apagar o muro. E foram apagados tantas outras vezes os traços que você fazia, que eu achava serem para mim. Traços de mim mesma, que com os meus desenhos procurava outros vazios, em outras línguas, imaginando que você fazia outros desenhos, saindo à noite logo em seguida para encontrar os meus. Grafites.

ESCOLHENDO FRIGIDEIRAS

me lembrei de um sonho recente: estava fritando ovo. Era ovo frito pra quem não gosta de ovo: eu. E eu sabia fritar ovo muito bem. O ovo caiu na frigideira e se acomodou ali sozinho; a parte de baixo ficando dura eu virei e a gema ficou, depois de um tempinho, com uma casa crocante, marronzinha. Parecia bom.

Mais alguém assistia a toda essa cena inédita, mas que me lembrava a infância, porque quando pequena eu ao menos comia gema mole com pão francês. E acho que pedia para mim fazer outro ovo frito.

ERA PRA SER

um diário de viagem; anotações do que ia, um dia depois do outro, acontecendo. Para isso ele teria que ser feito a qualquer momento, tirado da bolsa tão logo se passasse algo digno de nota: um chiste, uma nova palavra, uma placa de um lugar já conhecido que se reconhece, depois de anos. Um caderninho de capa bonita, floral. Que chamasse a atenção de quem está ao lado: – nossa, que bonito! deixa ver? – não.

Um diário que fala de todos mas que ninguém sabe o que diz.

Mas foi um caderninho – como outros que tenho, de folhas que se soltam – que me acompanhou mais enquanto estava sozinha. Para eu não dormir sem cuidados.

ERA O COMEÇO

de uma aula, da graduação. Eu queria assistir como ouvinte. A sala em tons muito escuros, em alto contraste, de cinza e amarelo. A professora não parecia ela, mas uma reunião de professoras que eu conheço. Ela hesitava em falar. Os alunos pareciam todos vestidos de preto, mas um preto úmido (talvez como no começo de ‘Retrato do artista quando jovem’). E nos meus óculos tinham passado vicky vaporub.

Um colega começa a falar e eu vejo que ele colocou os cabelos no lugar da barba. A cabeça meio raspada. Fico com vergonha dele e da minha presença lá. Resolvo sair rápido.

Chego na seção de alunos, a funcionária está sentada no chão, sujeira e areia. Uns insetos rodopiam. São joaninhas de várias espécies e tamanhos. As maiores estão comendo as menores. Menores ainda são uns pulgões (agora me lembro que no livro de ciências as joaninhas comiam pulgões, tinha uma foto), e menores ainda talvez fossem ácaros.

Aparece um cara que trabalhou comigo, que cuidava da eletricidade. Fico pensando porque até hoje ele estaria solteiro; mas uma moça iria aparecer na vida dele; digo isso pra mim mesma enquanto ele vai embora de carro, para a casa dele, que fica num bairro tranquilo, muito longe e fora de mão.

UM POUCO SOBRE CADA

filme desses últimos dias:

O Pequeno Nicolau: gracinha; há desmaios demais; como efeito cômico isso cansa. E a leitura do filme é centrada na vida do Goscinny (Nicolau seria Goscinny…), o que não é tão genial – e deixa o Sempé, que desenha Nicolau, de lado. Uma criança gritou durante a projeção: “Ai que filme chato!”

Cartas para Julieta: como vários filmes assim, começa promissor; mas depois da primeira meia hora, é só esperar o final.

Brilho de uma paixão: ele escreve, ela costura; poesia bonita, roupas lindas, paisagens de se apaixonar mesmo – e triste!

À prova de morte: Tarantino, a esperança de ver sempre algo ótimo; e provando que adora pés de mulher – Mia em Pulp fiction estalando o pé pra trás antes de dançar nunca vai sair da minha cabeça.

Ponyo: outra certeza pra vida – eu me emociono imensamente com Miyasaki! Até com o trailer “this summer” que a Disney fez pro filme, deturpando a história.

O profeta: como que pelo menos duas pessoas elogiaram à beça esse filme e recomendaram? “Bem bom” no máximo, como a Karen disse; previsível demais prum filme q dura 2h30. Mais uma vez aquela coisa dos franceses não perceberem que a França está “mudando”. Hum.

Hanami, cerejeiras em flor: mais Japão, além do Miyasaki; Japão com Alemanha; tocante com poucas coisas, com a sinceridade. Merece um post à parte.