EU QUERIA MAS

(até para conseguir o que quero) tenho que aceitar: – que algum termo no dicionário explica o que parece não encontrar palavra; – que não sou eu quem conta minha história; – que eu sou na verdade personagem, personagem ou aparição de sonho que quer contar uma história dentro de outras, mas que vive uma outra história que outra pessoa me conta.

DO QUE APRENDI COM AS MALAS

de viagem: para me acompanharem nos transportes públicos, a caminho de rodoviária, aeroporto, estação de trem, embarcação, carro, o que for, primeiro: não podem ter aquelas várias rodinhas que dão o giro de 360 graus. Não. Bastam duas rodas, não ‘rodinhas’, mas rodas grandinhas, robustas, para aguentarem os terrenos incertos por onde vou passar, por onde sempre passo. Bolsas de viagem, mais aconchegadas ao corpo do viajante, não suportam durante muito tempo o peso de livros que vão e vem comigo. Elas, malas ou sacolas, como também as bolsas, normalmente são de alguma cor, tem algo que é só delas e de mais nada: para serem reconhecidas de longe, como os amigos que aguardam minha chegada.

ESTAVA NO KOWEIT

(com essa grafia mesmo, por mais que pessoalmente eu prefira Kuwait). Um guia me acompanhava, um senhor muito alto e magro, vestido com roupas típicas, de cor roxa. Simpático, explicava como tudo funcionava. Eu andava com um xale nas mãos, e perguntei a ele se eu devia cobrir minha cabeça, meus cabelos, como as outras mulheres. Ele me respondeu que não precisava, mas me deu uma razão prática para se cobrir: eu não precisaria me preocupar com o visual do meu cabelo, se estava bem cortado ou penteado. E as estampas dos lenços e xales são sempre mais bonitas que os cabelos… – não lembro o que fiz com esses argumentos.

Continuamos andando e vimos à direita uma mesquita, que alguém chamou de ‘igreja’ e eu corrigi. Logo ao lado, uma grande tenda, onde pessoas comemoravam um casamento, dançando em círculo. E, ainda pertinho, um supermercado, onde tranquilamente as pessoas faziam suas compras, ouvindo os sons da festa de casamento.

EU QUERIA ESCREVER

achei que a hora tinha chegado; aí peguei umas fichas do meu pai, uma caneta esferográfica azul numa gaveta da cozinha. E comecei. Fui desenhando as letras que eu via: a marca da televisão, os rótulos das latas, caixas e garrafas, um aviso na rua, os letreiros todos que eu conseguia ver, no ponto do ônibus na Cardeal Arcoverde com a Lacerda Franco. Ali em frente tinha uma gráfica. Dali para onde estávamos indo? Não sei mais.

Enchi umas duas fichas de letras, que estão guardadas até hoje. Escrevia? Talvez hoje eu diria que para mim escrever é escrever com os outros, para os outros, a pedido de alguém.

ERA NA ÉPOCA DA ESCOLA

e estávamos organizando aqueles campeonatos de futebol, dos quais eu nunca participei; no sonho eu fazia parte da equipe de apoio ao jogadores, nos primeiros socorros. Entre os colegas que realmente jogavam bem (um deles até realmente virou jogador, foi jogar na Grécia…), estava o Neymar – ele mesmo. O jogo começa, ele passa mal, fica desacordado. Levo para o vestiário e eu o jogo numa banheira cheia de água (isso lembra o filme a Origem), e assim no susto ele acorda e continua a partida.

Outro sonho: pessoas visitavam meu prédio e eu redescobria algo interessante nele: um fosso que percorria os apartamentos, todos os andares. Não muito grande, ficava num canto da sala. As pessoas aproveitavam para colocar prateleiras com livros, cds, dvds. Eu usava o fosso para subir para o meu apartamento. Era um perigo de vida, cansativo, mas era gostoso ir subindo por dentro das casas dos meus vizinhos. Às vezes os filmes nas outras estantes lembravam coisas minhas do passado. Aos visitantes, no térreo, eu explicava esse sistema tão estranho. Meu pai me chamava de lá do alto.

FUI CORTAR O CABELO

e toda vez que vou, por ir tão raramente, é um dia escolhido, depois de muita espera. Dessa vez, o cabeleireiro não lavou, nem borrifou; foi cortando a seco, muito mais Edward-mãos-de-tesoura do que já poderia ter sido. Deu medo a tesoura acertar minha cabeça, me cortar. O resultado nunca é plenamente satisfatório nos primeiros momentos. Na rua parece que todos estão olhando pra mim. Cheguei na livraria passando mal, quase desmaiando. Precisei sentar.

Lembrei de outra vez que cortei os cabelos a seco, de pé. Devia ter uns 10 anos, o salão envelhecido, amarelado, de uma senhora da Martim Francisco. Também quase desmaiei durante o corte, pressão baixa, as mãos formigando, e a cabeleireira nem percebeu, eu quietinha esperando terminar. Chegando em casa, daquela vez, uma mecha enorme. Voltei lá para ela acertar e não fomos mais cortar o cabelo ali, naquele salão que talvez nem exista mais.

RECEBIA UM EMAIL

só um, no sonho; destacava-se dentre os já lidos. Abria: fora o oi e o nome de quem me mandou, uma frase só: “ah, você só poderia ser você mesmo!” Ao ler essa mensagem, ria um pouco, desconcertada. Fechava e abria o email, como se o conteúdo pudesse mudar – não mudava. Eu era eu.

Antes disso eu me perdia em vários corredores de uma feira de universidades, um lugar antigo, com cores creme, alguns corredores mais novos, outros parecendo um lugar no Mediterrâneo. Esse lugar ficava num terreno de subidas e descidas, casinhas de pedra, chão de pedra. Depois de o carro onde eu estava quebrar a pouca distância dali, de me perder do grupo que estava comigo, eu conversava com uma representante do estande do Japão. Poderíamos ter um acordo, eu era favorável. Dizia para ela que as políticas diplomáticas brasileiras são baseadas na reciprocidade.

ESTAVA NO RIO

e queria ir muito à cobal do Humaitá – vontade recorrente de sonho. Estava com umas moças. Elas queriam ir  de ônibus, não estávamos longe. Perdemos alguns, mas chegou um em que todas subiram: um ônibus com um bufê de degustação. Entre os bancos, uma mesa comprida com geleias, licores, pães e bolos. Numa parte mais acima, coisas de chocolate: brownie, brigadeiro. Sentei logo depois da porta; parecia só haver mulheres naquele ônibus. Uma moça servia a todas as outras, passava geleia num pedaço de pão que eu peguei, com uma faquinha de plástico. Ela misturou geleia de figo com morango.

Uma das mulheres que comia no ônibus era uma professora de espanhol, que conversava sobre uma fruta, ‘delique’, típica do Havaí. Eu já via essa fruta: era um morango mais estreito e amarelo, que crescia em árvores frondosas.

NESTE FILME

a mesma ponte – Bir-Hakeim, viaduto de Passy, Paris – de outros filmes

parece que estamos brincando de cabra-cega: o expectador (aquele que espera, sabe do tempo dessa brincadeira, e que o filme chegará ao final e alguma resposta vai aparecer no desenrolar dos créditos, a resposta que ele aguarda chegar) deixa que a venda pouse sobre seus olhos, que cubra a vista para que então as coisas possam ser descobertas.

Ele se deixa enganar – procurando significado em tudo, nas mínimas palavras, nos olhares mais furtivos – como o protagonista do filme constrói a armadilha que vai enganá-lo.

Tudo é estranho então? Talvez não. A venda não esconde tudo – ela mesma mostra algo. O expectador vendado, na brincadeira, aceita o que lhe cabe, inquieto.