ME VEJO NA RUA

sem roupa nenhuma. O que aconteceu antes no sonho, desconheço. Estou na Augusta, na parte mais movimentada, depois da Antônia de Queirós. É noite. Não estou sozinha. Uma outra pessoa me acompanha, também sem roupa. A mínima ideia de quem seja: uma mistura de amigos e desconhecidos, gente que mora perto e longe, personagem de histórias.

Sonho-padrão, como perda de dentes, queda em buraco, morte. Não estava com vergonha em meio à movimentação da Augusta. Talvez estivesse realizando um desejo-padrão também: ficar invisível.

HOJE NADJA DISSE

– você vai me ler. – tá bem, eu disse; tirei-a da estante.

Anos já eu olho para essa capa:

E fui de mãos dadas com ela que, como a André, me deixou uma pequena certeza: todos os livros devem ser como Nadja. Uma porta, um passeio entre pequenas e ricas coincidências: outubro, mãos e luvas, encontros marcados que não acontecem, acasos e enigmas que se acumulam. 10 de outubro Nadja disse a André: “tudo enfraquece, tudo desaparece. De nós alguma coisa deve permanecer”. Como, se mesmo a cidade já mudou de paisagem?

Não sou eu quem vai meditar sobre o que advém da “forma de uma cidade”, nem mesmo da verdadeira cidade, alheia e abstrata, daquela em que moro, por força de um elemento que seria para a minha mente o que o ar é para a vida. Sem nenhum arrependimento, agora a vejo tornar-se diferente e até fugir. Resvala, se incendeia, afunda no redemoinho de suas barricadas, no sonho das cortinas de seus quartos, onde um homem e uma mulher continuarão a se amar indiferentes.

Assim, num livro, as histórias não se apagam; são apenas outros começos.

O QUE SURPREENDEU

num filme do qual eu pouco criei expectativa?

A trilha sonora. Desde os créditos iniciais, aparecendo entre imagens de Manhattan ensolarada, a voz de David Byrne já garantia uma parte das boas sensações do filme. E não foram muitas mais, além do que Byrne e Brian Eno trouxeram com suas músicas.

Assim, o filme dura mais do que o que vi na sala – e de outro jeito, ouvindo e reouvindo a trilha.

PASSA NA LIVRARIA

era o que eu me dizia desde o começo do dia. Passa lá, vai ler quadrinhos! Fui, pensando num livro. Chegando lá vi outro:

Peguei na hora. Elefante. Memória. Memória de elefante, Caeto. Contracapa: “graphic novel autobiográfica”, “David B.”… pronto, não deu outra. Sentei para ler.

Já disse algumas vezes que a autobiografia é que me acha, mesmo eu sem procurar. Por ora, adorando: pelas durezas, pelo andamento que não é épico mas traz o cotidiano nas pequenas coisas, a vida entre livros lidos e não lidos, as esquinas por onde eu também passo, o preto-e-branco, nos grandes problemas que parecem tomar conta das nossas vidas. E que nos levam sempre a mais outras coisas.

UMA OUTRA VONTADE

foi ter guardado a foto desse livro:

era leitura da faculdade, peça de Beaumarchais (ou O barbeiro de Sevilha ou As bodas de Fígaro, ou as duas, visto que uma é continuação da outra). O que a foto diz do enredo? Não sei mais, sei lá se eu sabia na época. A data da foto, diz aqui, é 15 de junho de 2006. Ficou só ela, tirada mais ou menos na mesma posição em que me encontro agora enquanto escrevo.

MÚSICA PARA CORTAR OS PULSOS

para cantar junto o que se conhece de cor; para pensar que mais alguém ouve a mesma música que você e sofre junto, e se envenena também. Hoje, uma plateia toda de gente apaixonada, era o que me parecia. Uns chorinhos e suspiros aqui e ali, risos. Dos três – Isabela, Ricardo, Felipe – a gente ouve frases que contam nossa história; mas, como somos banais, elas contam todas as histórias. Aí a graça: saber que a gente vive coisas que não são só nossas.

Sabe quando você sabe que algo é bom? Quando esse algo dá vontade – e só faz com que essa vontade continue. Por toda a vida – é o que quero.

(a peça, esperando que seja mais no futuro!)

COISAS PEQUENAS

que vão aparecendo aqui e ali, sem ligação entre si e com mais nada além delas próprias:

  • depois do sonho que tive na Polônia, achei uma cantora polonesa gracinha;
  • semana passada experimentei de novo duas coisas que não gosto: quindim e água com gás; estavam ali à minha frente, me ofereceram, não me pareceram tão ruins, mas também não são coisas deliciosas;
  • finalmente peguei a linha amarela do metrô; bonitinha; esperei o metrô longe do vidros da plataforma; eles me assustam mais do que a plataforma sem eles;
  • fui ver Tropa de elite 2 e fiquei pensando talvez o óbvio: se o filme tivesse sido lançado antes do primeiro turno teria influenciado as discussões sobre os candidatos do legislativo?
  • descobri por acaso também quem é o Fraga do Tropa 2. E fico com outra pergunta: o filme precisa dizer que é ficção?

HOJE, 10 10 10,

é tão interessante quanto, em breve, 20/10/2010. A repetição agrada: casamentos marcados para durar, cesárias para as crianças terem um futuro promissor. Um menino inglês comemorou 10 anos às 10h10, uma campanha para a reduzir a emissão de co2 se centra na data. E mais informações aleatórias aparecem: em 1582 não houve 10 de outubro em alguns países, por conta de divergências nos calendários;  Ed Wood nasceu nesse dia, em 1924, Orson Welles morreu num 10/10, 1985. E a partir deste 10/10/10 as Antilhas Holandesas não existem mais, ganhando cada uma estatutos diversos.

DE REPENTE ME VEJO

numa livraria, com amigos. Cada um fui para um canto, o lugar grande de cor de madeira escura. Por acaso me deparo com o livro que tanto preciso para minha pesquisa: nele vou encontrar um rumo. É uma edição especial, formato grande, capa dura, mais de 500 páginas, com ilustrações em alta definição. Um detalhe: a encadernação está quebrada. Uma anotação a lápis na primeira página: desconto de 71,38%. Difícil entender se o preço final seria $ 31,87. Levo o livro ao caixa, mostro aos amigos. O moço do caixa não consegue me dizer o preço final. Não percebo que ele e meus amigos estão tirando as ilustrações do livro.

Finalmente: levei ou não o livro comigo? Não sei.