DUAS FESTAS

uma dia 17 de agosto; essa bem-sucedida, Karen e eu organizamos outra, em novembro, dia 23.

A primeira queríamos que fosse inovadora: talvez a primeira festa dos anos 90 depois dos anos 90. Esforço do grupo de amigos em lembrar das músicas da década anterior, com bem menos recursos na internet do que hoje. A segunda era à fantasia, com tema dos personagens de desenhos, principalmente. Todo o trabalho, o tempo e as andanças para achar um lugar, salão, casa ou algo parecido, alugar por uma noite, ir comprar bebidas onde fosse mais barato, equipamento de som e luz, fazer um convite legal, retocar as imagens com os meios amadores que tinha, colar cartazes por aí, fazer lista de emails. Depois: limpar tudo, e ver o que ainda hoje sobrou.

ME AGRADAVA REPETIR

coisas pequenas no dia a dia: sentar-me sempre no mesmo lugar da mesa para comer, usar a mesma colher para mexer o chá mate, comer o mesmo lanche no recreio, no mesmo lugar do pátio; manter fixas na semana as datas de devolução dos livros na biblioteca; numa mesma ordem pentear o cabelo, escovar os dentes  e tomar banho; organizar na mochila os livros e cadernos para cima, os livros atrás, cadernos à frente; as cores os lápis e canetas no estojo; tomar o metrô no mesmo vagão, escolher, se livre, o mesmo banco.

Ainda continuam certas coisas assim, que percebo se elas mudaram de lugar.

GUARDEI UMAS FOLHAS

no meio do caderno, para ler depois, anotações de um ciclo de palestras; mais de dois anos se passaram, peguei agora. Pouca coisa das notas me dá alguma informação precisa –  incompletas e lacunares demais. Não sei o que foi dito pelos professores e o que eu mesma pensei. Alguma coisa ali ainda é verdade para mim hoje.

O ASSUNTO ERA EU

e meus pais recordaram juntos de uma historinha.

Estávamos no consultório médico, otorrino provavelmente. O médico deixou o estetoscópio na mesa, eu o peguei e aproximei da boca. Ele me perguntou: – O que você quer fazer com isso, mocinha?

Disse: – Quero ver o que eu tenho por dentro, minha goela.

Fui chamada de curiosa.

Lembro disso, e também tinha outra versão, que minha mãe não conseguiu confirmar. Assim: na hora em que o médico pegou o palito de madeira para ver as amídalas, perguntei a ele: – Você quer ver minha goela?

A palavra goela, muito usada em casa, minha mãe corrigiu: – Não é goela, Ana Amelia; é garganta que se fala.

Goela (e gueule, em francês) rendem uma explicação no dicionário, em breve quem sabe.

FUI CORTAR O CABELO

e toda vez que vou, por ir tão raramente, é um dia escolhido, depois de muita espera. Dessa vez, o cabeleireiro não lavou, nem borrifou; foi cortando a seco, muito mais Edward-mãos-de-tesoura do que já poderia ter sido. Deu medo a tesoura acertar minha cabeça, me cortar. O resultado nunca é plenamente satisfatório nos primeiros momentos. Na rua parece que todos estão olhando pra mim. Cheguei na livraria passando mal, quase desmaiando. Precisei sentar.

Lembrei de outra vez que cortei os cabelos a seco, de pé. Devia ter uns 10 anos, o salão envelhecido, amarelado, de uma senhora da Martim Francisco. Também quase desmaiei durante o corte, pressão baixa, as mãos formigando, e a cabeleireira nem percebeu, eu quietinha esperando terminar. Chegando em casa, daquela vez, uma mecha enorme. Voltei lá para ela acertar e não fomos mais cortar o cabelo ali, naquele salão que talvez nem exista mais.

NO ESCRITÓRIO

eu tinha horário para chegar e para sair; não podia chegar depois, nem sair antes; mas muitas vezes chegava antes e saía depois, muito depois. Ia de sábado por escrúpulo: muito trabalho acumulado. Contava horas extras no fim do mês. Cultivava a rotina: ir ao mesmo supermercado, comprar o mesmo pacote de bolachas integrais; fazer as mesmas piadas com os colegas; rir e se exasperar com as mesmas mensagens do chefe; levar para ele a mesma caneca de café; ir à mesma livraria na hora do almoço. Algumas variações: às vezes um restaurante, almoço de negócios, eu, a assistente, mocinha estranha que se veste com a calça do pai. Um diretor de outra empresa, no telefone, me cantava ‘ô Anna Julia!…’. Toda sexta baião de dois e suco de limão na casa do norte, antes de escolher uma pilha de filmes para assistir em casa.

ESCOLHENDO FRIGIDEIRAS

me lembrei de um sonho recente: estava fritando ovo. Era ovo frito pra quem não gosta de ovo: eu. E eu sabia fritar ovo muito bem. O ovo caiu na frigideira e se acomodou ali sozinho; a parte de baixo ficando dura eu virei e a gema ficou, depois de um tempinho, com uma casa crocante, marronzinha. Parecia bom.

Mais alguém assistia a toda essa cena inédita, mas que me lembrava a infância, porque quando pequena eu ao menos comia gema mole com pão francês. E acho que pedia para mim fazer outro ovo frito.

HOJE EU QUERO SAIR SÓ

o clipe dessa música saiu bem na época em que eu vim passar férias no Rio com a família. O colorido do centro da cidade me encantava, era um outro ar, mesmo que parecido, diferente do centro de São Paulo que eu gosto tanto.

Era julho, tinha Copa do mundo como teve este ano. Uma noite eu liguei pro Teleguiado, aquele programa com o Cazé, ele me atendeu. Sempre tinha pensado em pedir o ‘Devil’s haircut’, do Beck; mas como era copa a gente precisava pedir clipes de músicas brasileiras. Então não teve outro.

Tanto o Beck como o o Leninne estão em seus clipes andando pela cidade.

A letra também me convinha um tantinho, lá em 1998. Hoje talvez um pouco mais do que antes.

NÃO SALVAR, PERDER

para sempre?

Muitas vezes fico pensando nas coisas feitas no computador que foram perdidas, seja por falta de backup, seja simplesmente por não ter guardado, não ter feito um arquivo – ou, mais grave, porque o arquivo foi salvo, o backup foi feito, mas em disquete, ou num cd que não funciona mais. Isso faz pensar que ao menos no papel é mais fácil guardar e não perder. Que quanto mais avançados os suportes de armazenamento, menos eficazes eles serão, e menos perenes.

O instinto de guardar os trabalhos para a faculdade é mais evidente. O que dizer de páginas da internet, blogs, conversas no icq, participações em fóruns?

Ao menos para as páginas públicas na internet há um recurso de ouro: o Internet Archive Wayback Machine, parte do grande site feito por uma organização sem fins lucrativos que reúne também arquivos de áudio, vídeo e trabalha em parceria com a Biblioteca do Congresso e o projeto Gutenberg.

Às vezes me esqueço da existência dele, e fico lamentando os blogs perdidos. O Luís, simples, me lembrou do Wayback (ele é quem me apresentou?) faz alguns dias. Corri para lá e recuperei duas jóias de 2003.

A primeira: “o porquê do quintal”, blog autobiográfico do Sérgio, que eu lia com encantamento, esse Sérgio que na época era alguém já querido mas que escondia ou se fazia ver por meio de bichos, trechos de livros, letras de música, falas de filmes e histórias sinceras.

As coisas mudam e continuam as mesmas. Na época eu fazia também uma pequena autobiografia, para uma disciplina da faculdade; me ajudou muito ler o que o Sérgio escrevia, embora hoje o que me tinha sobrado não era o conteúdo em si de suas lembranças, mas o ar de infância que é o dele. Isso é coisa para continuar em outro post.

A outra é “cinebase”, projeto paralelo do grande blog sobre rádio, radiobase. O Marcos Lauro tinha me convidado para participar do cinebase escrevendo sobre filmes, coletando notícias. Eu sempre salvei todos os meses meu colher, mas o cinebase deixei de lado, não tinha salvo nada. Foi surpresa que li minhas críticas de filmes ótimos daqueles meses de abril a julho de 2003: Chihiro, Confissões de uma mente perigosa, A festa nunca termina, etc. Eu até assumi um certo ar de “crítica jornalístca”, colocando números, relacionando atores aos seus trabalhos anteriores, etc.

Achei tão legal me confrontar com esse eu-lá-de-anos-atrás que eu vou republicar alguns dos textos, seguidos da imagem que tenho hoje. É uma idéia.